Nutrology Academy Insights & Reviews

Conteúdos que abrangem todas as áreas da Nutrologia para você se manter atualizado

Vitamina D, Obesidade e Infertilidade: O Que Todo Médico Precisa Saber

A infertilidade afeta cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva, e sua origem é multifatorial. Nos últimos anos, dois fatores têm ganhado crescente atenção na literatura científica: a deficiência de vitamina D e a obesidade. Mais do que fatores isolados, evidências sugerem que ambos atuam de forma sinérgica, potencializando o impacto negativo sobre a função reprodutiva masculina e feminina. Compreender essa interação é essencial para o médico que deseja oferecer um cuidado reprodutivo verdadeiramente integral.

Uma revisão publicada na revista Nutrients (Bosdou et al., 2019 — doi: 10.3390/nu11071455) consolidou as evidências disponíveis sobre o papel da vitamina D e da obesidade na infertilidade humana, propondo mecanismos fisiopatológicos que conectam essas duas condições à disfunção reprodutiva. O presente texto resume os principais achados e discute suas implicações práticas para a atuação do médico nutrologo.

Artigo referência: Vitamin D and Obesity: Two Interacting Players in the Field of Infertility – PMC


Vitamina D e Infertilidade Masculina: Do Espermatozoide à Testosterona

A presença do receptor de vitamina D (VDR) e da enzima CYP27B1 em tecidos do sistema reprodutor masculino indica que essa vitamina exerce funções além do metabolismo ósseo. Estudos observacionais demonstram correlação positiva entre os níveis séricos de 25(OH)D e parâmetros seminais, incluindo motilidade e morfologia dos espermatozoides.

Um estudo transversal com 300 homens mostrou que aqueles com deficiência grave de vitamina D (< 10 ng/mL) apresentavam proporção significativamente menor de espermatozoides móveis e com morfologia normal em comparação àqueles com níveis suficientes. Quanto ao status androgênico, homens com níveis adequados de vitamina D exibem concentrações mais elevadas de testosterona total e livre, conforme demonstrado em grandes estudos populacionais europeus.

Do ponto de vista intervencionista, ensaios clínicos randomizados já demonstraram que a suplementação de colecalciferol melhora a motilidade espermática progressiva e aumenta as taxas de gravidez espontânea em homens com insuficiência de vitamina D. A relação, no entanto, parece seguir um padrão em U: tanto níveis muito baixos quanto muito elevados de 25(OH)D associam-se a piores parâmetros seminais, reforçando a importância da reposição criteriosa, com alvo entre 30 e 50 ng/mL.


Vitamina D e Infertilidade Feminina: TRA, Endometriose e SOP

Na mulher, os dados são ainda mais robustos no contexto das técnicas de reprodução assistida (TRA). Uma metanálise de 11 estudos de coorte envolvendo 2.700 mulheres demonstrou taxas mais elevadas de nascidos vivos em mulheres com status suficiente de vitamina D em comparação àquelas com deficiência ou insuficiência (OR: 1,33; IC95% 1,08–1,65). Resultados semelhantes foram confirmados em outra metanálise recente incluindo nove estudos de coorte.

Além do contexto de FIV/ICSI, a vitamina D parece influenciar condições ginecológicas diretamente ligadas à infertilidade. Em mulheres com endometriose, a incidência de deficiência de vitamina D foi significativamente maior do que em controles (80% vs. 33,3%), e há correlação inversa entre os níveis séricos de 25(OH)D e o diâmetro dos endometriomas ovarianos.

Nas pacientes com síndrome dos ovários policísticos (SOP), a vitamina D também demonstra papel relevante. Uma metanálise de nove ensaios clínicos randomizados mostrou que a suplementação aumentou o número de folículos dominantes e melhorou a regularidade do ciclo menstrual. Além disso, mulheres com SOP e deficiência de vitamina D apresentam menor probabilidade de ovulação após indução, com incremento de 2% nas taxas de nascido vivo para cada aumento de 1 ng/mL nos níveis de 25(OH)D.

a interação entre deficiência de vitamina D, obesidade e infertilidade masculina e feminina
Entender a relação entre deficiência de vitamina D, obesidade e infertilidade masculina
e feminina, é importante para o médico nutrólogo

Obesidade e Reprodução: Um Impacto Abrangente em Ambos os Sexos

A obesidade (IMC > 30 kg/m²) compromete a fertilidade por múltiplos mecanismos. No homem, destaca-se a aromatização periférica de testosterona em estrogênio no tecido adiposo, a redução da SHBG hepática, o aumento do estresse oxidativo com dano ao DNA espermático e a disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Metanálises demonstram que homens obesos apresentam maior risco de oligozoospermia e azoospermia, além de menores taxas de nascidos vivos após TRA.

Na mulher, os efeitos são igualmente expressivos. A obesidade está associada a maior resistência à estimulação ovariana, menor número de oócitos recuperados, taxas mais baixas de gravidez clínica e maiores taxas de abortamento. Uma grande metanálise de 33 estudos, incluindo quase 48.000 ciclos de FIV/ICSI, demonstrou que mulheres com sobrepeso ou obesidade apresentam menores taxas de gravidez clínica e nascidos vivos, além de maior risco de perda gestacional, em comparação a mulheres com IMC normal.

A perda de peso, seja por intervenção dietética combinada com exercício ou por cirurgia bariátrica, demonstra benefício sobre os desfechos reprodutivos. Uma metanálise de oito estudos retrospectivos mostrou taxa média de 58% de gravidez espontânea após cirurgia bariátrica em mulheres obesas inférteis. Contudo, o médico deve considerar que a idade tem impacto maior do que o IMC sobre os resultados acumulados de FIV, o que pode tornar o adiamento do tratamento desfavorável em mulheres mais velhas.


A Interação Entre Vitamina D e Obesidade na Infertilidade

Um ponto especialmente relevante para o médico nutrólogo é que obesidade e deficiência de vitamina D coexistem frequentemente e podem potencializar-se mutuamente na promoção da infertilidade. A obesidade favorece a redução dos níveis circulantes de vitamina D por ao menos três mecanismos: sequestro da vitamina no tecido adiposo, menor exposição solar e redução da expressão das enzimas responsáveis pela sua hidroxilação.

Em mulheres com SOP, por exemplo, as concentrações de 25(OH)D no fluido folicular são negativamente correlacionadas com o IMC, e a expressão do VDR em células da granulosa é significativamente menor em pacientes com sobrepeso e SOP em comparação a mulheres com peso normal sem a síndrome. Isso indica que a obesidade não apenas reduz a disponibilidade de vitamina D, mas pode atenuar sua ação nos tecidos reprodutivos.


Implicações Clínicas e o Papel da Nutrologia na Saúde Reprodutiva

O conjunto de evidências apresentado reforça que a avaliação do status de vitamina D e do perfil nutricional como um todo deve integrar a propedêutica do paciente infértil, tanto masculino quanto feminino. A intervenção nutrológica, incluindo suplementação de vitamina D em casos de deficiência e estratégias estruturadas de perda de peso, tem potencial para melhorar desfechos reprodutivos de forma clinicamente significativa.

Para o médico interessado em aprofundar sua atuação nessa interface entre nutrologia e reprodução, a formação especializada torna-se um diferencial competitivo essencial. A Nutrology Academy oferece pós-graduações estruturadas com base em evidências científicas, voltadas especificamente para médicos que desejam dominar áreas como a Nutrologia da Obesidade e a Nutrologia Feminina, campos diretamente relacionados aos desfechos discutidos neste artigo.

É médico e quer saber mais sobre obesidade, clique nesse link e conheça a nossa Pós graduação Nutrologia da Obesidade: Pós Graduação Nutrologia da Obesidade – Nutrology Academy

Se você é médico e quer saber mais sobre Nutrologia Feminina, conheça a nossa Pós Graduação em Nutrologia FemininaAcesse: Pós Nutrologia Feminina – Nutrology Academy


Referência

Bosdou, J.K.; Konstantinidou, E.; Anagnostis, P.; Kolibianakis, E.M.; Goulis, D.G. Vitamin D and Obesity: Two Interacting Players in the Field of Infertility. Nutrients 2019, 11, 1455. https://doi.org/10.3390/nu11071455

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!