O uso de suplementos alimentares em crianças e adolescentes tem aumentado nas últimas décadas, muitas vezes sem a orientação de profissionais de saúde. Este artigo revisa as evidências sobre a prevalência, os tipos mais comuns de suplementos, as motivações por trás de seu consumo, riscos potenciais e recomendações clínicas com base na literatura atual. A revisão destaca a necessidade de orientação médica e nutricional adequada, avaliando tanto benefícios quanto riscos associados ao uso não supervisionado.
Artigo referência: Use of dietary supplements by children and adolescents – PMC
Introdução ao Uso de Suplementos Alimentares na População Pediátrica
Suplementos alimentares são produtos destinados a complementar a dieta de indivíduos saudáveis ou de grupos com risco de deficiência. Eles podem incluir vitaminas, minerais, aminoácidos, ácidos graxos, probióticos, entre outros componentes bioativos, e estão amplamente disponíveis em supermercados, farmácias e lojas online.
Globalmente, observa-se um aumento no consumo desses produtos por crianças e adolescentes, impulsionado por fatores culturais, sociais e de marketing. Nos Estados Unidos, mais de 30 % das crianças relatam uso regular de suplementos, com prevalência também elevada em países como Austrália e China.
Fatores que Contribuem para o Aumento do Consumo
1. Percepção dos Cuidadores e Profissionais de Saúde
Muitos pais e responsáveis acreditam que os suplementos podem proteger contra infecções, melhorar a imunidade, estimular o crescimento ou suprir deficiências dietéticas, mesmo na ausência de indicação clínica. Apoio inadequado de profissionais de saúde ou recomendações vindas de redes sociais e conhecidos contribuem para esse comportamento.
2. Pressões Socioculturais nos Adolescentes
Em adolescentes, a busca por desempenho físico, estética corporal e “corpo ideal” estimula o uso de suplementos proteicos, aminoácidos e energéticos. A influência das mídias sociais, publicidade e cultura fitness influencia diretamente esse padrão de consumo.
Principais Tipos de Suplementos Utilizados
Proteínas e Aminoácidos
Suplementos proteicos, como whey protein, são frequentemente utilizados por adolescentes atletas na tentativa de aumentar a massa muscular ou melhorar o desempenho físico. Embora possam ser úteis em contextos específicos (atletas com necessidades proteicas elevadas), seu uso indiscriminado sem avaliação profissional pode não trazer benefícios adicionais e gerar riscos.
Além das proteínas, aminoácidos como BCAAs (aminoácidos de cadeia ramificada) e creatina são populares. A creatina, por exemplo, pode auxiliar no desempenho de esforços repetitivos de alta intensidade, mas seus efeitos a longo prazo em adolescentes ainda requerem avaliação cuidadosa.
Vitaminas e Minerais
• Multivitamínicos
Os multivitamínicos são muito consumidos por pais que acreditam que podem compensar deficiências dietéticas. Contudo, muitos produtos não cobrem 100 % das necessidades de micronutrientes e podem induzir à toxicidade quando consumidos em excesso.
• Vitamina D
A vitamina D é crucial para o metabolismo do cálcio e prevenção de doenças ósseas, como raquitismo. Recomenda-se suplementação em grupos de risco (como crianças com pouca exposição solar ou dietas restritivas), mas sua suplementação indiscriminada sem avaliação de níveis séricos pode resultar em hipercalcemia.
• Vitamina C e Complexo B
Embora essenciais para funções metabólicas e imunológicas, a suplementação de vitamina C não demonstrou reduzir significativamente infecções respiratórias em crianças saudáveis. Complexo B é indicado apenas quando há restrições dietéticas ou absorção intestinal comprometida.
Melatonina e Bebidas Energéticas
O uso de melatonina em adolescentes tem aumentado para tratar distúrbios do sono. Apesar de parecer um recurso útil, a falta de padronização nas dosagens e pouca orientação profissional são preocupações relevantes. Bebidas energéticas, muitas vezes consumidas como “suplementos de desempenho”, contêm estimulantes que representam risco de arritmias e efeitos adversos cardiovasculares em jovens.
Ácidos Graxos Ômega-3 e Probióticos
Suplementos de ácidos graxos, como ômega-3, podem ter papel em funções neurológicas e anti-inflamatórias. Probióticos são utilizados para saúde intestinal, mas evidências robustas em crianças saudáveis ainda são limitadas.

Riscos e Desvantagens do Uso Não Supervisionado
1. Doses Inadequadas e Toxicidade
Suplementos não regulados por agências de saúde podem ter variações de composição e concentração. Isso pode resultar em doses inadequadas, com risco de deficiência ou toxicidade. Excesso de vitaminas lipossolúveis (como D e A) pode causar efeitos adversos graves.
2. Interações Farmacológicas
Suplementos podem interagir com medicamentos ou condições clínicas específicas, alterando a eficácia terapêutica ou aumentando eventos adversos, o que é especialmente relevante em crianças com condições crônicas ou em uso de múltiplos fármacos.
3. Falta de Evidência Científica Robusta
Para muitos suplementos utilizados por crianças e adolescentes, faltam estudos clínicos bem desenhados que demonstrem eficácia em populações pediátricas saudáveis. Isso torna difícil justificar seu uso rotineiro sem indicação médica ou nutricional clara.
Recomendações Clínicas Baseadas em Evidências
Avaliação Individualizada
É essencial que profissionais de saúde avaliem o estado nutricional, níveis séricos de micronutrientes e hábitos alimentares antes de indicar qualquer suplemento. A orientação personalizada é fundamental para evitar uso desnecessário ou prejudicial.
Educação de Cuidadores e Adolescentes
Médicos e nutricionistas devem educar famílias sobre a importância de uma dieta equilibrada como principal fonte de nutrientes, destacando que suplementos não substituem alimentos in natura.
Indicações Específicas
Suplementos devem ser utilizados quando há indicação clínica comprovada, como deficiência de micronutrientes diagnosticada por exames, necessidades aumentadas por condições específicas (dietas restritivas, esportistas de alto rendimento sob supervisão), ou tratamento de doenças específicas.
Conclusão: Suplementos Alimentares em Crianças
O uso de suplementos alimentares em crianças e adolescentes é comum e está em crescimento mundial. No entanto, grande parte desse consumo ocorre sem orientação profissional, expondo esta população a riscos potenciais, como ingestão inadequada, toxicidade e interações indesejadas. A evidência científica disponível ainda é limitada em diversos aspectos, reforçando a necessidade de recomendações individualizadas e educação em saúde. Médicos pediatras, nutricionistas e outros profissionais devem orientar cuidadores e adolescentes a priorizar dietas balanceadas e solicitar avaliação clínica antes de iniciar qualquer suplementação.
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