A doença cardiovascular continua sendo a principal causa de morte entre pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e boa parte desse risco está ligada a alterações silenciosas na parede dos vasos sanguíneos, muito antes de qualquer evento clínico se manifestar. Rigidez arterial, disfunção endotelial e espessamento da íntima-média carotídea são marcadores que, isolados ou combinados, ajudam a explicar por que o paciente diabético envelhece vascularmente mais rápido do que o esperado para sua idade cronológica. Para o médico que acompanha esses pacientes no dia a dia, entender quais intervenções realmente modificam esse cenário é uma necessidade prática, não apenas acadêmica.
Nesse contexto, uma revisão sistemática publicada na Review of Diabetic Studies avaliou os efeitos do treinamento resistido (TR) isolado e do treinamento combinado (TR associado ao exercício aeróbico) sobre a função vascular em adultos com DM2, reunindo catorze estudos controlados e randomizados publicados até agosto de 2017 (ARAUJO et al., 2019). O trabalho é particularmente relevante porque o exercício aeróbico já tem seus benefícios cardiovasculares bem estabelecidos na literatura, mas o papel do treinamento de força, cada vez mais recomendado para preservar massa muscular, capacidade funcional e controle glicêmico, ainda gera debate quando o desfecho analisado é a saúde vascular.
Artigo referência: Effects of Resistance and Combined training on Vascular Function in Type 2 Diabetes: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials – PMC
Compreender essas evidências permite ao médico nutrólogo orientar as práticas de exercício mais seguras e mais efetivas, evitando tanto o extremo de negligenciar o treinamento de força quanto o de indica-lo sem considerar variáveis como intensidade, duração e associação com exercício aeróbico.
Por Que a Função Vascular Importa no Diabetes Tipo 2?
A hiperglicemia crônica e a resistência insulínica geram um ambiente pró-inflamatório e de estresse oxidativo que compromete a camada endotelial dos vasos. O resultado prático é a redução da biodisponibilidade de óxido nítrico (NO), molécula central na vasodilatação, além de fragmentação da elastina e deterioração do colágeno na parede arterial, processos que, somados, aumentam a rigidez arterial e reduzem a capacidade de resposta vasodilatadora dos vasos frente a estímulos fisiológicos.
Esses fenômenos são avaliados clinicamente por meio de diferentes métodos, entre eles:
- Dilatação mediada por fluxo (FMD): mede a resposta vasodilatadora dependente do endotélio.
- Velocidade de onda de pulso (PWV) e análise de onda de pulso (PWA): quantificam a rigidez arterial.
- Espessura íntima-média carotídea (cIMT): reflete alterações estruturais crônicas da parede vascular.

O Que a Evidência Mostra Sobre Treinamento Resistido Isolado?
Dos catorze estudos incluídos, apenas dois avaliaram o treinamento resistido puro, sem associação com exercício aeróbico. Os resultados foram parcialmente contraditórios: um deles observou melhora da função endotelial após um programa de catorze semanas, com intensidade elevada (75-85% de uma repetição máxima). Já o segundo estudo, com duração mais curta (doze semanas) e intensidade mais baixa, não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos avaliados.
A leitura conjunta desses dois trabalhos sugere um ponto prático relevante: a duração da intervenção parece ser tão importante quanto a intensidade quando o objetivo é modificar a função vascular por meio do treinamento de força isolado. Programas curtos, mesmo que bem estruturados, podem não ser suficientes para induzir adaptações vasculares mensuráveis em pacientes com DM2.
Treinamento Combinado: Os Resultados São Mais Consistentes?
A maior parte dos estudos analisados, onze dos catorze, utilizou o treinamento combinado, associando exercício resistido ao aeróbico. Nesse grupo, a maioria dos trabalhos identificou efeitos positivos sobre a função vascular, incluindo melhora da função endotelial, redução da rigidez arterial, aumento da complacência arterial e até remodelamento de artérias periféricas em subgrupos específicos.
Ainda assim, um número relevante de estudos (cinco) não observou alterações significativas nos parâmetros vasculares avaliados. Essa divergência pode estar relacionada a fatores como o tempo de diagnóstico do diabetes, já que uma exposição mais prolongada à hiperglicemia tende a causar dano estrutural mais avançado na parede arterial, potencialmente menos responsivo a intervenções de curto e médio prazo.
Qual o Mecanismo Fisiológico Por Trás Dessas Adaptações?
Os autores da revisão discutem alguns mecanismos plausíveis para explicar os benefícios observados. O aumento do fluxo sanguíneo durante o exercício gera estresse de cisalhamento (shear stress) sobre as células endoteliais, estímulo mecânico que se converte em sinalização química, favorecendo a expressão da enzima óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) e, consequentemente, maior disponibilidade de óxido nítrico. Paralelamente, o exercício regular reduz a expressão de moléculas pró-inflamatórias, como moléculas de adesão, interleucinas e proteína C-reativa e favorece o aumento de células progenitoras endoteliais, contribuindo para regeneração vascular.
Limitações e Perspectivas Para a Prática Clínica
É importante que o médico reconheça as limitações apontadas pela própria revisão: a qualidade metodológica dos estudos incluídos foi, de forma geral, baixa. Poucos estudos utilizaram randomização adequada ou cegamento de avaliadores, e a maioria não teve grupo controle. Além disso, a heterogeneidade nos protocolos (intensidade, frequência, duração) e nos vasos avaliados dificulta conclusões definitivas sobre a intervenção ideal.
Ainda assim, o conjunto de evidências aponta para uma direção prática: o treinamento resistido, especialmente quando associado ao exercício aeróbico, tende a favorecer a função vascular em pacientes com DM2, e seu uso é respaldado por diretrizes de sociedades como a American Diabetes Association, que recomendam a combinação de modalidades de exercício no manejo do diabetes tipo 2.
Conclusão
A revisão sistemática discutida reforça um princípio já conhecido no manejo do paciente com diabetes tipo 2: o exercício físico é uma ferramenta terapêutica com impacto direto na saúde vascular, e não apenas no controle glicêmico. O treinamento resistido isolado parece exigir maior duração para gerar benefícios vasculares consistentes, enquanto o treinamento combinado tende a produzir resultados positivos em prazos mais curtos, embora nem todos os estudos concordem entre si.
Para o médico que atua na prática clínica, esse corpo de evidências reforça a importância de individualizar a recomendação de exercício, considerando tempo de diagnóstico, grau de disfunção vascular já instalado e capacidade funcional do paciente. Compreender esses mecanismos em profundidade e acompanhar a evolução constante da literatura sobre exercício, metabolismo e função vascular, é parte do compromisso com uma prática médica atualizada e baseada em evidências, um dos pilares da formação contínua em Nutrologia.
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Referências:
ARAUJO, J. E. S.; MACEDO, F. N.; BARRETO, A. S.; SANTOS, M. R. V.; ANTONIOLLI, A. R.; QUINTANS-JUNIOR, L. J. Effects of resistance and combined training on vascular function in type 2 diabetes: a systematic review of randomized controlled trials. Rev Diabet Stud, v. 15, p. 16-25, 2019.
