A preparação para uma maratona vai muito além de simplesmente acumular quilômetros. Embora o aumento do volume de treinamento seja tradicionalmente considerado um dos pilares para melhorar o desempenho, cada vez mais estudos demonstram que a forma como esse treinamento é distribuído ao longo dos meses pode ser tão importante quanto a quantidade de corrida realizada.
Um estudo prospectivo publicado por DeJong Lempke et al. (2025), na revista Sports Medicine, avaliou 917 corredores da Maratona de Boston de 2022 para investigar como o volume de treinamento, a frequência das sessões e as mudanças na rotina de preparação influenciaram o desempenho na prova. Os resultados oferecem evidências relevantes para médicos que acompanham atletas de endurance e pacientes fisicamente ativos, reforçando a importância da periodização do treinamento na otimização da performance (DEJONG LEMPKE et al., 2025).
Artigo referência: Training Volume and Training Frequency Changes Associated with Boston Marathon Race Performance – PMC
O que determina um bom desempenho na maratona?
O desempenho em provas de longa distância depende de diversos fatores fisiológicos, incluindo consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), economia de corrida, limiar de lactato, resistência à fadiga, composição corporal e estratégia nutricional. Entretanto, todos esses fatores sofrem influência direta da maneira como o treinamento é estruturado ao longo da preparação.
Mais do que treinar muito, é necessário treinar de forma inteligente, equilibrando estímulos, recuperação e adaptação fisiológica.
Quanto maior o volume de treino, melhor o desempenho?
Os resultados do estudo sugerem que, de maneira geral, sim.
Os corredores que apresentaram melhores tempos na Maratona de Boston eram aqueles que, durante todo o período preparatório, acumulavam:
- maior quilometragem semanal;
- maior número de sessões de corrida;
- maior número de treinos de qualidade (intervalados, tiros, tempo run ou fartlek);
- maior carga geral de treinamento.
Durante os oito meses que antecederam os quatro meses finais da preparação (12–4 meses antes da prova), cada aumento na exposição ao treinamento esteve associado a melhores resultados na competição.
Por exemplo:
- maior distância semanal foi associada a tempos mais rápidos;
- maior número de sessões semanais também apresentou relação positiva com a performance;
- os treinos de intensidade elevada (“quality sessions”) mostraram uma das associações mais fortes com melhores tempos finais.
Esses achados reforçam que a construção consistente de uma base aeróbica permanece sendo um dos principais determinantes do desempenho em provas de endurance.
Os treinos intensos realmente fazem diferença?
Sim.
O estudo mostrou que a inclusão regular de sessões de maior intensidade esteve fortemente associada ao desempenho competitivo.
Entre esses treinos estão:
- intervalados;
- tempo run;
- fartlek;
- sessões de ritmo de prova.
Esses estímulos promovem adaptações cardiovasculares e neuromusculares importantes, como aumento da capacidade aeróbica, melhora da economia de corrida e maior tolerância ao esforço sustentado.
Na prática clínica, esse resultado reforça que programas compostos apenas por corridas leves e longas podem não oferecer o mesmo potencial de melhora da performance quando comparados a planejamentos que incluem diferentes intensidades de treinamento.
O treinamento complementar também melhora a performance?
Outro achado importante foi o papel do cross-training.
Os atletas que realizaram mais sessões de treinamento complementar durante os quatro meses que antecederam a prova apresentaram melhor desempenho.
Entre essas atividades estavam modalidades como:
- musculação;
- ciclismo;
- natação;
- exercícios de condicionamento físico.
Embora o estudo não tenha diferenciado quais modalidades produziram maior benefício, os autores sugerem que o treinamento complementar provavelmente contribui para:
- melhora da economia de corrida;
- redução da sobrecarga musculoesquelética;
- aumento da capacidade física;
- maior tolerância ao volume de treinamento.
Esse resultado está alinhado com evidências anteriores que demonstram benefícios do treinamento de força para corredores de endurance.

Reduzir os treinos antes da prova pode melhorar o resultado?
Surpreendentemente, sim.
Um dos achados mais interessantes da pesquisa foi observar que os corredores com melhor desempenho reduziram discretamente a frequência das sessões de corrida nos meses imediatamente anteriores à competição, quando comparados ao período anterior da preparação.
À primeira vista, isso pode parecer contraditório.
Entretanto, essa estratégia corresponde ao conceito conhecido como taper ou “afunilar”, amplamente utilizado no treinamento esportivo.
O que é o taper?
O taper consiste em uma redução planejada da carga de treinamento nas semanas que antecedem uma competição importante.
O objetivo não é perder condicionamento, mas permitir que o organismo:
- recupere completamente os estoques energéticos;
- reduza a fadiga acumulada;
- otimize adaptações fisiológicas;
- alcance o pico de desempenho no dia da prova.
No estudo, atletas que diminuíram o número de sessões semanais de corrida apresentaram tempos significativamente melhores do que aqueles que mantiveram ou aumentaram sua frequência de treinamento.
Esse resultado reforça que aumentar continuamente o volume até a prova pode não ser a estratégia mais eficiente.
O que esses resultados significam para a prática médica?
Médicos que acompanham corredores frequentemente recebem perguntas como:
- “Devo correr mais perto da prova?”
- “Vale a pena manter o volume máximo até a última semana?”
- “Treino de força realmente ajuda?”
As evidências apresentadas neste estudo permitem algumas orientações práticas.
O melhor desempenho esteve associado à combinação de:
- elevado volume de treinamento ao longo da preparação;
- inclusão regular de treinos de intensidade;
- realização de treinamento complementar;
- redução planejada da frequência de corrida na fase final da preparação.
Essas informações podem auxiliar tanto médicos do esporte quanto nutrólogos, fisiologistas, educadores físicos e outros profissionais envolvidos no cuidado de atletas recreacionais e competitivos.
Existem limitações nesse estudo?
Sim.
Embora seja uma das maiores investigações já realizadas sobre preparação para maratonas, algumas limitações devem ser consideradas.
O treinamento foi informado pelos próprios participantes, o que pode gerar erros de memória ou imprecisões.
Além disso, o estudo não avaliou aspectos importantes como:
- distribuição precisa da intensidade dos treinos;
- estratégias nutricionais;
- qualidade da recuperação;
- histórico de lesões;
- qualidade do sono.
Outro ponto importante é que a maior parte dos participantes era composta por corredores amadores altamente treinados. Portanto, os resultados não necessariamente podem ser extrapolados para atletas de elite.
Conclusão
A preparação para uma maratona envolve muito mais do que simplesmente aumentar a quilometragem semanal. O estudo de DeJong Lempke e colaboradores demonstra que uma combinação de alto volume de treinamento ao longo dos meses, inclusão de treinos de qualidade, prática de treinamento complementar e uma redução planejada da frequência das corridas na fase final da preparação está associada a melhores resultados na competição.
Para o médico que acompanha corredores, esses achados reforçam a importância de compreender os princípios da periodização esportiva e orientar seus pacientes de maneira baseada em evidências. À medida que a prática da corrida continua crescendo, manter-se atualizado sobre as estratégias que realmente impactam o desempenho torna-se essencial para oferecer um cuidado mais completo e individualizado.
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