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Nutrologia do Exercício: O Gap Entre Planejamento e Consumo Real de Carboidratos em Atletas

Por Que Atletas de Endurance Não Conseguem Cumprir Suas Estratégias de Carboidrato na Competição?

A nutrição esportiva baseada em evidências é um dos pilares da Nutrologia do Exercício. Diretrizes consolidadas recomendam entre 60 e 90 g de carboidratos por hora para exercícios com duração superior a 2,5 horas, faixa suficiente para manter a glicemia, preservar o glicogênio muscular e hepático e sustentar a performance em provas longas. No entanto, a prática clínica e os dados de campo revelam um cenário diferente: a maioria dos atletas não amadores não consegue atingir essas metas durante a competição.

Um estudo publicado no European Journal of Sport Science em 2025, conduzido por Lanpir et al., investigou, de forma inédita, a ingestão real de carboidratos durante provas de endurance por meio da pesagem pré e pós-corrida de todos os produtos nutricionais utilizados pelos atletas, indo além das estimativas autorrelatadas tradicionais. Os resultados revelam um gap significativo entre o que foi planejado, o que foi percebido e o que foi efetivamente consumido, e apontam fatores comportamentais e psicológicos como determinantes desse déficit. Para o médico que atua ou deseja atuar com Nutrologia do Exercício, compreender esse fenômeno é fundamental para uma prescrição nutricional individualizada e clinicamente eficaz.

Artigo referencia: Under Consumed and Overestimated: Discrepancies in Race‐Day Carbohydrate Intake Among Endurance Athletes – Lanpir – 2025 – European Journal of Sport Science – Wiley Online Library


Metodologia Inovadora: Pesagem Real dos Produtos como Padrão-Ouro

O estudo acompanhou 60 atletas do Nível 2 (treinados/desenvolvimento), 38 maratonistas e 22 ciclistas, em duas provas oficiais na Turquia: a Maratona Internacional de Mersin (42,195 km) e uma prova de ciclismo Gran Fondo de 101 km. Todos os produtos contendo carboidratos (géis, bebidas em pó, barras) foram pesados individualmente antes e após cada prova em balança digital calibrada. A diferença entre o peso pré e pós-corrida multiplicada pelo teor de carboidrato do produto determinou a ingestão real — uma metodologia objetiva que elimina o viés de memória e de estimativa.

Além disso, foram aplicados três questionários validados: o Athlete Sleep Behavior Questionnaire (ASBQ), para avaliação do comportamento de sono; o Competitive State Anxiety Inventory-2 Revised (CSAI-2R), para mensuração da ansiedade pré-competição; e a Gastrointestinal Symptom Rating Scale (GSRS), para rastreio de sintomas gastrointestinais antes e após as provas.


O Gap Entre Planejamento e Consumo Real: Dados que Todo Nutrólogo Precisa Conhecer

Os resultados foram expressivos. Em toda a coorte, a ingestão real de carboidratos (31,7 ± 23,5 g/h) ficou significativamente abaixo do planejado (38,0 ± 27,3 g/h; p < 0,001). Quando analisados separadamente:

  • Maratonistas planejaram consumir 25,9 g/h e consumiram efetivamente 21,7 g/h — um déficit de 4,2 g/h (~16%)
  • Ciclistas planejaram 58,9 g/h e consumiram 49,1 g/h — déficit absoluto maior (10,3 g/h), mas proporcionalmente similar (~17%)

Nenhum dos grupos atingiu a meta mínima de 60 g/h recomendada pelas diretrizes. Apenas 5,3% dos maratonistas e 50% dos ciclistas atingiram a ingestão mínima durante a prova. Quando avaliada a adequação nas 24 horas anteriores à corrida (meta: 10–12 g/kg/dia), nenhum dos grupos chegou perto: ciclistas mediram 4,95 g/kg e maratonistas apenas 3,40 g/kg.

Um achado clínico particularmente relevante diz respeito à percepção distorcida dos próprios atletas: maratonistas superestimaram sua ingestão, ou seja, acreditavam ter consumido mais do que realmente consumiram. Ciclistas, por sua vez, perceberam sua ingestão de forma mais próxima à real, mas ainda assim consumiram menos do que planejado sem perceber. Essa dissociação entre percepção e realidade tem implicações diretas para o acompanhamento clínico: o atleta pode relatar uma estratégia nutricional aparentemente adequada sem que ela esteja, de fato, sendo executada.


Géis Esportivos: Os Maiores Vilões do Déficit

Entre os produtos mais utilizados, géis esportivos em ambos os grupos (97,4% dos maratonistas e 90,9% dos ciclistas), os géis foram responsáveis pela maior proporção de itens não consumidos (leftovers). Bebidas em pó, gomas e isotônicos foram consumidos em maior proporção. Ciclistas demonstraram estratégia mais diversificada, utilizando mais bebidas em pó com carboidrato (27,3% vs. 5,3% dos maratonistas) e produtos com cafeína.

Do ponto de vista clínico, esse dado sugere que a forma de apresentação do produto pode influenciar o comportamento de consumo durante a prova, não necessariamente por intolerância gastrointestinal, mas por fatores logísticos e de execução. A prescrição dietética para o atleta deve, portanto, ir além da indicação de gramas por hora e incluir orientações práticas sobre o tipo e o momento de consumo de cada produto.


Sono e Ansiedade Cognitiva como Preditores da Ingestão de Carboidratos

A análise de regressão múltipla hierárquica identificou três preditores independentes da ingestão real de carboidratos durante a prova:

  1. Tipo de prova (ciclistas consumiram mais que maratonistas)
  2. Melhor comportamento de sono (ASBQ total) — preditor positivo
  3. Menor ansiedade cognitiva (CSAI-2R) — preditor inverso

O modelo final explicou 41% da variância na ingestão de carboidratos (R² = 0,41; p < 0,05). Ciclistas apresentaram escores ASBQ significativamente piores (paradoxalmente, escores mais altos indicam piores comportamentos de sono no instrumento), mas com características distintas — maior uso de estimulantes e ambientes variados — o que não se traduziu em pior ingestão de carboidratos, possivelmente por compensação em outras variáveis comportamentais.

A relação entre privação de sono e comportamento alimentar é biologicamente plausível: o sono inadequado compromete a função cognitiva, a regulação do apetite e a tolerância a alimentos durante o esforço. Para o médico nutrólogo, esses dados reforçam que a prescrição nutricional para atletas não pode ser dissociada da avaliação de saúde do sono e do estado psicológico pré-competição.


Sintomas Gastrointestinais: Um Fator Menos Determinante do que se Supõe

Contrariando a hipótese inicial dos pesquisadores, os sintomas gastrointestinais não diferiram significativamente entre maratonistas e ciclistas (p > 0,20 para todas as comparações), e sintomas graves foram relatados por uma minoria: 7,9% dos maratonistas e 13,6% dos ciclistas no pré-prova; 10,5% e 4,5% no pós-prova, respectivamente. Portanto, o déficit de carboidratos observado não pode ser atribuído primariamente ao desconforto gastrointestinal, o que abre espaço para outras intervenções.


Nutrologia do exercício: Implicações Clínicas para o Médico Nutrólogo

Esses resultados têm aplicação direta no consultório e na prescrição de estratégias nutricionais para atletas de endurance:

  • Não confie apenas no relato do atleta: a pesagem pré e pós-prova de produtos revelou déficits que o próprio atleta não percebe. Considere ferramentas objetivas de monitoramento.
  • Avalie o sono e o estado psicológico: ambos predizem a execução da estratégia nutricional com mais robustez do que o simples planejamento dietético.
  • Revise o tipo de produto prescrito: géis são práticos, mas têm maior taxa de não consumo. Estratégias diversificadas, incluindo bebidas com carboidrato, podem melhorar a aderência.
  • Trabalhe a educação nutricional para além do “quanto”: o atleta precisa compreender o “como” e o “quando” consumir, incluindo simulações em treinos longos.
  • Foque no carregamento de carboidratos: a ingestão nas 24 horas pré-prova foi gravemente inadequada em ambos os grupos, um ponto de intervenção clínica acessível e com alto impacto potencial.

Conclusão: A Nutrologia do Exercício Como Ciência Comportamental

O estudo de Lanpir et al. (2025) evidencia que otimizar a nutrição do atleta de endurance vai muito além de calcular gramas de carboidrato por hora. O gap entre planejamento e execução é real, mensurável e influenciado por variáveis comportamentais e psicológicas que o médico nutrólogo está em posição privilegiada para identificar e tratar.

A formação especializada em Nutrologia do Exercício capacita o médico a integrar prescrição nutricional, avaliação do sono, manejo da ansiedade pré-competição e educação do atleta em uma abordagem verdadeiramente individualizada. É essa visão ampliada que diferencia o nutrólogo clínico no cuidado ao atleta recreacional e de alto rendimento.

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Referência: Lanpir, A. D., Eroğlu, M. N., Özyıldırım, M., & Louis, J. (2025). Under Consumed and Overestimated: Discrepancies in Race-Day Carbohydrate Intake Among Endurance Athletes. European Journal of Sport Science, 25, e70055. https://doi.org/10.1002/ejsc.70055

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