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Nutrição Esportiva Baseada em Evidências: Guia para Médicos Segundo o Consenso da Sociedade Espanhola de Nutrição (SEÑ)

A nutrição esportiva avançou consideravelmente na última década, saindo de recomendações genéricas para um campo de alta especialização clínica. Hoje, o médico que atua com atletas, sejam eles de elite ou recreacionais, precisa dominar não apenas os princípios fisiológicos do metabolismo energético, mas também as nuances de cada estratégia dietética disponível e suas indicações precisas. A individualização do plano alimentar, a fase da temporada, o tipo de esporte e o estado de saúde do atleta são variáveis que determinam, de forma direta, os desfechos de desempenho e saúde.

Em dezembro de 2025, a Sociedade Espanhola de Nutrição (SEÑ) publicou um documento de consenso intitulado “Consensus Document of the Spanish Nutrition Society (SEÑ) on Nutritional Strategies in Sports” (Mielgo-Ayuso et al., Nutrients, 2025, 17, 3862; https://doi.org/10.3390/nu17243862), reunindo um painel multidisciplinar de especialistas para revisar criticamente as principais estratégias dietéticas utilizadas no esporte. O documento oferece recomendações práticas baseadas em evidências e serve como referência fundamental para profissionais médicos que desejam aprimorar sua atuação na nutrologia do exercício.

Artigo referência: Consensus Document of the Spanish Nutrition Society (SEÑ) on Nutritional Strategies in Sports – PMC


Por Que Nenhuma Dieta É Universalmente Superior para Atletas

Uma das conclusões mais importantes do consenso da SEÑ é que não existe uma estratégia alimentar ideal para todos os atletas. A resposta metabólica e fisiológica às diferentes dietas é altamente variável e depende de fatores como genética, sexo, idade, nível de treinamento, tipo de esporte e fase da temporada. Isso significa que a prescrição nutricional no contexto esportivo é, antes de tudo, um ato clínico individualizado, e não a simples aplicação de um protocolo padronizado.

Essa perspectiva é especialmente relevante para o médico que se forma na nutrologia: a competência em interpretar evidências, identificar o perfil metabólico do paciente-atleta e adaptar estratégias ao longo do tempo é o que diferencia uma conduta de excelência de uma intervenção genérica.


Alta Disponibilidade de Carboidratos: A Estratégia com Maior Respaldo Científico

Para esportes de endurance, esportes coletivos e disciplinas de alta intensidade, a dieta rica em carboidratos (HCD) permanece como a estratégia com maior suporte científico. Os carboidratos são o principal substrato energético durante exercícios de moderada a alta intensidade, e sua disponibilidade influencia diretamente a ressíntese de glicogênio, a manutenção da intensidade de treino e a recuperação.

As recomendações variam de 3–5 g/kg/dia em sessões leves até 10–12 g/kg/dia em fases de carregamento pré-competição. Durante o exercício, ingestas de 30–60 g/h são indicadas para esforços de 1 a 2,5 horas, podendo chegar a 90–120 g/h em eventos ultraendurance com misturas de glicose e frutose. A periodização da ingestão, adequada ao volume e à intensidade da sessão, é um ponto-chave para evitar tanto o déficit quanto o excesso calórico.


Dieta Low-Carb e Cetogênica: Indicações Clínicas e Limitações no Esporte

As dietas com restrição de carboidratos (LCD) e a dieta cetogênica (KD) aumentam significativamente a oxidação de gorduras e podem ser úteis em contextos específicos, como na redução de massa gorda em fases preparatórias ou em esportes de ultra-endurance de baixa intensidade. No entanto, o consenso é claro: essas estratégias comprometem o desempenho em esforços de alta intensidade e na capacidade de sprint repetido, por reduzirem a disponibilidade de glicogênio muscular e aumentarem o custo energético do exercício.

A KD, especificamente, não é recomendada para atletas de sprint, esportes coletivos em fase competitiva ou modalidades que dependem de potência anaeróbica. Sua aplicação deve ser restrita a ciclos curtos (2–3 semanas), em fases pré-temporada, com monitoramento de marcadores bioquímicos e supervisão profissional rigorosa.


estratégias nutricionais no esporte
Nutrição esportiva: o médico que atua com atletas precisa dominar os princípios fisiológicos do metabolismo energético e as estratégias dietéticas

Jejum Intermitente no Esporte: Ferramenta Válida, Mas com Ressalvas

O jejum intermitente (IF), especialmente na modalidade de alimentação com restrição de tempo (TRF, 16:8), tem ganhado popularidade como estratégia de recomposição corporal e melhora de parâmetros metabólicos. Em ciclistas de elite, estudos demonstraram benefícios na composição corporal e em marcadores de desempenho após protocolos de 8 semanas, sem comprometimento de força ou potência.

Contudo, em esportes que exigem alta demanda glicolítica — como sprints, lutas e esportes coletivos, o jejum pode reduzir a disponibilidade de energia durante sessões críticas, prejudicando a qualidade do treinamento. A recomendação é implementar o IF de forma progressiva, durante fases de menor carga, evitando sua aplicação em períodos competitivos ou próximo a sessões de alta intensidade.


Nutrição Esportiva Plant-Based para Atletas: Compatível com a Alta Performance?

As dietas vegetarianas e veganas (VEG) são compatíveis com o desempenho esportivo de alto nível quando adequadamente planejadas. O consenso da SEÑ destaca que essas dietas podem oferecer benefícios em esportes aeróbicos, pela maior ingestão de antioxidantes, carboidratos complexos e fitoquímicos, mas exigem atenção especial a nutrientes críticos como vitamina B12, ferro, zinco, cálcio, vitamina D e ácidos graxos ômega-3.

Para atletas de força e potência, a distribuição proteica ao longo do dia e a inclusão de fontes ricas em leucina são estratégias fundamentais. A suplementação com creatina e beta-alanina é particularmente relevante para atletas veganos em modalidades anaeróbicas. O acompanhamento laboratorial periódico é mandatório nesse grupo.


Periodização de Carboidratos: A Estratégia Mais Avançada da Nutrologia Esportiva

A periodização de carboidratos representa a fronteira mais avançada da nutrição esportiva baseada em evidências. Ela envolve a manipulação planejada da disponibilidade de carboidratos ao longo dos ciclos de treino e competição, com o objetivo de maximizar adaptações metabólicas sem comprometer o desempenho.

As principais estratégias incluem o “train low, compete high”, treinar com baixa disponibilidade de glicogênio para estimular adaptações mitocondriais, competindo com reservas plenas, o protocolo “sleep low” e o uso de sessões duplas com restrição de CHO entre elas. A periodização é aplicável transversalmente a diferentes modalidades, mas sua implementação exige planejamento detalhado e integração entre nutricionista, médico e comissão técnica.


Considerações Específicas para Atletas do Sexo Feminino

O documento da SEÑ reforça a necessidade de atenção específica às atletas femininas. Flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual influenciam o metabolismo de substratos, a recuperação e o risco de lesões. A maior prevalência de deficiência relativa de energia no esporte (RED-S) nessa população exige monitoramento criterioso da disponibilidade energética, função menstrual, saúde óssea e perfil de micronutrientes, especialmente ferro, cálcio, vitamina D e ômega-3.


O Papel do Médico Nutrólogo na Prescrição de Estratégias Nutricionais

A complexidade das estratégias nutricionais no esporte reforça a importância da formação médica especializada em nutrologia. O médico nutrólogo é o profissional mais capacitado para integrar dados clínicos, laboratoriais e de desempenho, prescrevendo intervenções seguras e eficazes. Compreender a fisiologia do exercício, interpretar marcadores bioquímicos específicos de atletas e conhecer os limites e indicações de cada estratégia dietética são competências essenciais nessa atuação.

A Nutrology Academy oferece pós-graduações médicas voltadas especificamente para a nutrologia do exercício, da obesidade, feminina e pediátrica, formando médicos com base científica sólida para atuar nesse campo em crescente expansão.


Nutrição esportiva: Evidência, Individualização e Supervisão Profissional

O consenso da SEÑ (2025) é inequívoco: não há dieta universalmente superior para atletas. A alta disponibilidade de carboidratos permanece como o padrão-ouro para modalidades de alta intensidade, enquanto estratégias como jejum intermitente, dieta cetogênica e periodização de carboidratos têm indicações específicas e contextualizadas. Dietas plant-based são viáveis com planejamento adequado, e a periodização nutricional emerge como ferramenta central da nutrologia esportiva contemporânea.

Para o médico que deseja atuar com excelência nesse campo, a formação especializada em nutrologia é o caminho mais seguro e eficaz, tanto para os resultados dos pacientes quanto para a consolidação de uma prática clínica de referência.

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Referência principal: Mielgo-Ayuso J, Macho-González A, Úbeda N, et al. Consensus Document of the Spanish Nutrition Society (SEÑ) on Nutritional Strategies in Sports. Nutrients. 2025;17(24):3862. https://doi.org/10.3390/nu17243862

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