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Exercício Físico como Estratégia Metabólico-Imune no Câncer

O câncer não é apenas uma doença genética, é também uma doença metabólica e imunológica. Compreender essa tríade é fundamental para qualquer médico que deseja oferecer ao seu paciente oncológico uma abordagem verdadeiramente integrativa e baseada em evidências. Nesse contexto, o exercício físico emerge não como um coadjuvante periférico, mas como uma intervenção capaz de agir diretamente sobre os dois pilares centrais da progressão tumoral: a reprogramação metabólica das células cancerígenas e a evasão imunológica.

Uma revisão científica publicada em 2025 no periódico Exercise Immunology Review (EIR), intitulada “Exercise-Induced Metabolic Reprogramming and Immune Modulation: A Novel Strategy for Cancer Therapy” (He et al., 2025), sintetiza com profundidade os mecanismos moleculares pelos quais o exercício físico regular remodela o microambiente tumoral (TME), modula vias metabólicas críticas e restaura a competência imunológica, abrindo uma nova fronteira para a oncologia de precisão.

Artigo referência: Exercise-Induced Metabolic Reprogramming and Immune Modulation: A Novel Strategy for Cancer Therapy – PubMed


O Efeito Warburg e Por Que o Exercício Pode Revertê-lo

Células tumorais preferem a glicólise aeróbica, mesmo na presença de oxigênio, ao invés da fosforilação oxidativa mitocondrial. Esse fenômeno, descrito por Otto Warburg, resulta em acúmulo maciço de lactato no microambiente tumoral. O lactato não é apenas um subproduto metabólico: ele acidifica o TME, suprime a função citotóxica de células T CD8+ e NK, e promove a polarização de macrófagos para o fenótipo M2 pró-tumoral, consolidando um ambiente profundamente imunossupressor.

O exercício físico de endurance demonstrou reduzir a acúmulo de lactato tumoral ao aumentar o clearance sistêmico e regular negativamente os reguladores-chave do transporte e metabolismo do lactato, como LDHA, MCT1 e ERRα. Essas adaptações têm o potencial de reverter o TME de imunossupressor para imuno-permissivo, um achado com implicações diretas na prática clínica oncológica.


Eixos de Sinalização Ativados pelo Exercício: AMPK, PGC-1α e IL-6/STAT3

O exercício físico ativa três grandes eixos de sinalização com relevância direta no contexto tumoral:

1. Eixo AMPK–mTOR–HIF1α: O AMPK, sensor central de energia celular, é fortemente ativado pelo exercício. Sua ativação suprime a sinalização mTOR, reduz a glicólise tumoral, e o acumulo de lactato mediado por HIF1α e melhora a capacidade oxidativa mitocondrial de células T e NK, o que se traduz em maior atividade efetora anticâncer.

2. Eixo PGC-1α–ERRα: O PGC-1α, coativador transcricional mestre da biogênese mitocondrial, é induzido pelo exercício e regula a secreção de miocinas como irisina e IL-15, que remodeiam a flexibilidade metabólica de células imunes. Nas células tumorais, PGC-1α promove OXPHOS e restringe a glicólise. O ERRα, atuando downstream, regula o metabolismo do lactato e da energia nos tumores, e sua ativação aberrante pode ser inibida pelo exercício.

3. Eixo IL-6/STAT3: O exercício induz elevações transitórias e benéficas de IL-6 derivada do músculo esquelético (miocina), melhorando a sensibilidade à insulina, estimulando a mobilização de células NK e CD8+ T e ativando transientemente vias STAT3 com efeito anti-inflamatório. É fundamental distinguir essa sinalização aguda e benéfica da ativação crônica de IL-6,esta última associada à progressão tumoral.

Exercício físico e câncer: mecanismos pelos quais o exercício físico modula o microambiente tumoral e fortalece células NK e CD8+ T na oncologia
Exercício físico e câncer: o exercício modula o microambiente tumoral e fortalece células NK e CD8+ T na oncologia

Como o Exercício Modula a Imunidade Antitumoral

O impacto do exercício sobre o sistema imune no contexto oncológico é robusto e multidimensional:

Imunidade inata: O exercício agudo mobiliza células NK, monócitos, neutrófilos e células dendríticas para a circulação. Estudos em modelos animais demonstraram que o exercício voluntário suprime o crescimento tumoral via mobilização e infiltração de células NK mediada por epinefrina e IL-6, com redução da incidência tumoral e do risco de recorrência.

Imunidade adaptativa: O treinamento crônico melhora a citotoxicidade de células T CD8+ por meio do aumento de granzima B, perforina e IFN-γ, além de reduzir a expressão de marcadores de exaustão como PD-1, TIM-3 e LAG-3. Esses efeitos potencializam a resposta a terapias de bloqueio de checkpoint imunológico, dado de altíssima relevância translacional.

Remodelação do TME: O exercício reduz a acumulação de células supressoras derivadas de mielóides (MDSCs), reverte a polarização de macrófagos do fenótipo M2 para M1 e melhora a vascularização tumoral, facilitando a infiltração de células imunes. A secreção muscular de miR-29a-3p via vesículas extracelulares foi demonstrada em modelos de CPCNP como capaz de suprimir a deposição de colágeno estromal e promover infiltração de células T.


Prescrição de Exercício em Oncologia: O Princípio FITT Aplicado

A intensidade é o parâmetro mais crítico para a eficácia anticâncer. Exercícios de intensidade moderada (~60% da capacidade máxima) são os que mais consistentemente aumentam a infiltração intratumoral de células T CD8+ e a expressão de moléculas efetoras (CD69, IFN-γ, GzmB), sem os efeitos imunossupressores associados ao treinamento exaustivo — que eleva Tregs e citocinas anti-inflamatórias de forma sustentada.

A frequência mínima recomendada é de duas sessões semanais de exercício moderado a vigoroso para manter a ativação imune sustentada. Em relação à duração, intervenções superiores a 24 semanas produzem adaptações imunoemetabólicas duradouras. Para pacientes com caquexia, anemia ou imunossupressão, o treinamento resistido de baixa intensidade combinado a suporte nutricional adequado é a abordagem mais segura e eficaz.


Oncologia de Precisão pelo Exercício: O Papel do Médico Nutrológo

A emergência da “Precision Exercise Oncology” coloca o médico, especialmente o nutrológo, em posição estratégica. A prescrição de exercício baseada em biomarcadores metabólicos e imunológicos permite individualizar intervenções para maximizar o benefício terapêutico e minimizar riscos.

Essa integração entre metabolismo, imunologia e exercício representa exatamente o campo de atuação do médico nutrológo contemporâneo: uma especialidade capaz de atuar transversalmente, com embasamento científico sólido e impacto clínico real em pacientes oncológicos.


Conclusão: Exercício físico e câncer

O exercício físico não é mais uma recomendação genérica de “hábito saudável” para pacientes com câncer. É uma intervenção não-farmacológica, com alvos moleculares definidos, doses (intensidade, frequência, duração) e mecanismos de ação claros. Dominar essa ciência faz parte da formação do médico nutrológo moderno.

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Referência: He A, Wang S, Bao T, Rong S, Li C, Luo M, He C, Yang Y, Xia Y. Exercise-Induced Metabolic Reprogramming and Immune Modulation: A Novel Strategy for Cancer Therapy. Exercise Immunology Review. 2025;31:43–66.

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