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Obesidade em Primeiro Lugar: por que tratar a doença precocemente pode transformar o futuro da saúde

Durante décadas, a obesidade foi frequentemente abordada como consequência de hábitos inadequados ou como um fator de risco para outras doenças. No entanto, essa visão tem mudado rapidamente à medida que novas evidências demonstram que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial, recidivante e responsável por desencadear inúmeras condições metabólicas e cardiovasculares. Nesse contexto, surge o conceito “Obesity First”, que propõe uma mudança de paradigma: tratar a obesidade como alvo primário da assistência médica, em vez de concentrar esforços apenas nas suas complicações.

Essa proposta foi apresentada por Mulder CJJ, Bayoumy AB e Ansari AR, no artigo The “Obesity First” Approach: Redefining the Future of Healthcare, publicado no Indian Journal of Gastroenterology (2025), no qual os autores defendem que o tratamento precoce da obesidade pode modificar significativamente a evolução de diversas doenças crônicas e reduzir o impacto global dessa condição sobre os sistemas de saúde.

Artigo referência: The ‘Obesity First’ approach: Redefining the future of healthcare – PMC

Para o médico, compreender essa mudança é fundamental. O surgimento de terapias altamente eficazes, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1, ampliou as possibilidades terapêuticas e reforçou a necessidade de enxergar a obesidade como uma doença que merece tratamento específico, individualizado e contínuo, e não apenas como um fator de risco para diabetes tipo 2, hipertensão ou doença cardiovascular.


O que significa o conceito “Obesity First”?

A proposta do Obesity First parte de uma premissa relativamente simples: inúmeras doenças crônicas compartilham a obesidade como um dos principais fatores fisiopatológicos. Dessa forma, ao controlar precocemente o excesso de adiposidade, seria possível reduzir a incidência, retardar a progressão ou melhorar o prognóstico dessas enfermidades.

Tradicionalmente, a assistência médica costuma priorizar o tratamento das complicações. É comum que pacientes recebam medicamentos para hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia ou esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASLD), enquanto a obesidade permanece subtratada. Segundo os autores da revisão, essa estratégia pode representar uma oportunidade perdida de atuar na origem do problema.

Essa mudança de perspectiva aproxima a obesidade de outras doenças crônicas, como hipertensão ou asma, nas quais o tratamento contínuo visa controlar a doença e prevenir desfechos futuros.


A obesidade deve ser encarada como uma doença crônica

Diversas sociedades médicas internacionais já reconhecem a obesidade como doença crônica. O artigo reforça que ela resulta da interação entre fatores genéticos, ambientais, metabólicos, comportamentais e sociais, sendo fortemente influenciada pelo chamado ambiente obesogênico.

Esse ambiente caracteriza-se pela ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados, elevada densidade energética da alimentação moderna, redução da atividade física cotidiana, urbanização acelerada e mudanças no estilo de vida. Esses fatores favorecem o ganho progressivo de peso mesmo em indivíduos geneticamente predispostos.

Além disso, os autores destacam que a obesidade apresenta comportamento recidivante. A perda ponderal obtida apenas com intervenções no estilo de vida costuma ser modesta e frequentemente seguida por recuperação parcial ou total do peso, resultado das adaptações hormonais e metabólicas que favorecem o retorno ao peso anterior.


Ilustração médica representando o conceito Obesity First com médico avaliando paciente com obesidade e estratégias modernas de tratamento metabólico.
Obesity First: inúmeras doenças crônicas compartilham a obesidade como um dos principais fatores fisiopatológicos

Por que as intervenções tradicionais nem sempre são suficientes?

Mudanças alimentares, prática regular de atividade física e terapia comportamental permanecem pilares fundamentais do tratamento da obesidade.

Entretanto, o artigo destaca que, embora essas estratégias promovam perdas de aproximadamente 5% a 10% do peso corporal, sua efetividade em longo prazo ainda é limitada quando utilizadas isoladamente. Isso ajuda a explicar por que, apesar de décadas de campanhas de promoção da saúde, a prevalência mundial de obesidade continua aumentando.

Esse cenário reforça um importante conceito clínico: o insucesso terapêutico nem sempre decorre de falta de adesão do paciente. Alterações neuroendócrinas relacionadas ao controle do apetite, da saciedade e do gasto energético dificultam a manutenção da perda de peso, justificando a necessidade de estratégias terapêuticas adicionais em muitos casos.


Os agonistas do receptor de GLP-1 mudaram o tratamento da obesidade

Segundo os autores, a introdução dos agonistas do receptor de GLP-1 representa um dos maiores avanços da medicina da obesidade nas últimas décadas. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses medicamentos demonstraram importante efeito sobre a saciedade, redução da ingestão alimentar e perda ponderal clinicamente significativa.

Entre os fármacos discutidos estão a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida, esta última apresentando resultados superiores em estudos comparativos de perda de peso. Além da redução da adiposidade, os agonistas de GLP-1 têm sido associados a benefícios metabólicos importantes, incluindo melhora do controle glicêmico, redução do risco cardiovascular, proteção renal e potencial benefício em pacientes com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD).

Apesar desses resultados promissores, a revisão ressalta que esses medicamentos não substituem mudanças no estilo de vida. A farmacoterapia deve integrar uma abordagem multidisciplinar e ser encarada como parte do manejo crônico da doença, e não como solução temporária.


Cirurgia bariátrica ou agonistas de GLP-1: como integrar essas estratégias?

Um dos aspectos mais interessantes da revisão é que os autores não propõem uma disputa entre tratamento farmacológico e cirurgia bariátrica. Em vez disso, defendem uma abordagem integrada e individualizada, considerando o perfil clínico, o risco metabólico, as preferências do paciente e os objetivos terapêuticos.

A cirurgia bariátrica permanece uma das intervenções mais eficazes para pacientes com obesidade grave, sobretudo pela magnitude e durabilidade da perda de peso. No entanto, o avanço dos agonistas do receptor de GLP-1 amplia as possibilidades terapêuticas, seja como alternativa para pacientes não elegíveis à cirurgia, seja como ponte para o procedimento ou mesmo como estratégia complementar no pós-operatório. Os autores destacam que ainda faltam estudos robustos comparando diretamente a relação custo-efetividade, o sequenciamento ideal das terapias e a melhor combinação entre tratamento medicamentoso e cirurgia.

Outro ponto relevante é o impacto econômico. Embora os agonistas de GLP-1 possam parecer mais acessíveis no curto prazo, a utilização prolongada pode superar o custo da cirurgia bariátrica em um intervalo relativamente curto, especialmente considerando que a interrupção da medicação frequentemente está associada a recidiva de peso. Essa observação reforça a necessidade de planejamento terapêutico individualizado e acompanhamento longitudinal.


O conceito “Obesity First” pode mudar a prática clínica?

Segundo a revisão, a principal inovação do modelo “Obesity First” não está apenas na incorporação de novos medicamentos, mas na mudança da lógica assistencial.

Na prática clínica atual, é comum que hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemia, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), apneia obstrutiva do sono e doenças cardiovasculares sejam tratadas como entidades independentes. O conceito proposto pelos autores sugere que, em muitos pacientes, essas condições representam manifestações de uma mesma doença de base: a obesidade.

Sob essa perspectiva, tratar precocemente a obesidade pode reduzir a necessidade de múltiplos medicamentos, retardar a progressão de doenças crônicas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Para o médico, isso significa incorporar uma visão mais abrangente do risco cardiometabólico e reconhecer a obesidade como alvo terapêutico prioritário, e não apenas como um fator de risco secundário.


Perspectivas futuras para o tratamento da obesidade

Os autores destacam que a evolução da farmacoterapia para obesidade está longe de atingir seu limite.

Novos agentes em investigação, como retatrutida, survodutida, pemvidutida e orforglipron, poderão ampliar ainda mais as opções terapêuticas disponíveis, oferecendo diferentes mecanismos de ação e potencialmente maior eficácia clínica. No entanto, a revisão ressalta que ainda são necessários estudos que esclareçam aspectos como segurança em longo prazo, sustentabilidade da perda de peso, impacto sobre mortalidade e custo-efetividade dessas terapias.

Outro aspecto discutido é a possibilidade de expansão das indicações dos agonistas de GLP-1 além da obesidade. Evidências iniciais sugerem benefícios em pacientes com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), além de potenciais aplicações em doenças inflamatórias intestinais e outras condições metabólicas. Entretanto, os próprios autores reforçam que esses resultados ainda exigem confirmação por estudos prospectivos de maior qualidade antes de serem incorporados rotineiramente à prática clínica.


Conclusão

A crescente prevalência da obesidade exige uma mudança na forma como essa doença é compreendida e tratada. A proposta “Obesity First” representa uma evolução do raciocínio clínico ao defender que a obesidade deixe de ser encarada apenas como fator de risco e passe a ocupar posição central na prevenção e no manejo das doenças crônicas.

O desenvolvimento dos agonistas do receptor de GLP-1 inaugurou uma nova fase da medicina da obesidade, oferecendo ferramentas terapêuticas mais eficazes e ampliando as possibilidades de intervenção precoce. Contudo, seu uso deve ocorrer dentro de uma estratégia individualizada, baseada em evidências, integrada às mudanças no estilo de vida e, quando indicado, às terapias endoscópicas ou cirúrgicas.

Para o médico, compreender essa transformação é essencial para oferecer um cuidado mais abrangente, fundamentado na fisiopatologia da doença e alinhado às evidências científicas mais recentes. À medida que novas terapias surgem e o conhecimento evolui, investir em atualização profissional torna-se indispensável para incorporar essas mudanças à prática clínica e proporcionar uma assistência cada vez mais qualificada aos pacientes com obesidade.


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