A obesidade é frequentemente explicada pela ideia de que o consumo de energia supera o gasto energético. Embora esse princípio seja fundamental para compreender as alterações de peso corporal, ele não explica sozinho por que algumas pessoas desenvolvem obesidade nem por que a manutenção da perda de peso pode ser tão difícil. A revisão de Levin, Geary e Lutz propõe uma perspectiva mais ampla: o armazenamento de energia, especialmente na forma de tecido adiposo, está sujeito a mecanismos fisiológicos de regulação que envolvem o sistema nervoso central, sinais hormonais, ingestão alimentar e gasto energético.
Essa discussão tem implicações importantes para a prática clínica. Em vez de interpretar o reganho ponderal simplesmente como consequência de baixa adesão, é necessário considerar que a perda de peso pode desencadear respostas biológicas que favorecem a recuperação do peso anteriormente perdido. Levin, Geary e Lutz (2025), em revisão publicada na Physiological Reviews, discutem esse fenômeno como uma possível desregulação da homeostase energética, destacando o papel do cérebro, da leptina e de circuitos neurais envolvidos na fome e na saciedade.
Artigo referência: The (dys)regulation of energy storage in obesity – PubMed
O que é homeostase energética?
A homeostase energética corresponde ao conjunto de mecanismos que contribuem para manter a disponibilidade de energia do organismo dentro de determinados limites. Em termos simplificados, a relação entre ingestão energética, gasto energético e armazenamento pode ser representada pela equação:
Ingestão energética − gasto energético = armazenamento de energia.
Quando a ingestão supera o gasto, parte dessa energia é armazenada, principalmente no tecido adiposo. Entretanto, a regulação desse processo é muito mais complexa do que uma simples contabilidade de calorias. O organismo integra sinais provenientes do tecido adiposo, do trato gastrointestinal, do metabolismo e do ambiente por meio de circuitos neurais e neuroendócrinos.
A revisão destaca que o cérebro exerce papel central nessa regulação. Sistemas responsáveis por controlar a ingestão alimentar e o gasto energético recebem informações periféricas e ambientais e ajustam o comportamento alimentar e outras respostas metabólicas.
Por que algumas pessoas desenvolvem obesidade?
A obesidade não pode ser atribuída a um único fator. Segundo Levin, Geary e Lutz (2025), sua manifestação resulta da interação entre predisposição genética e um ambiente que favorece o consumo energético, além de fatores relacionados ao desenvolvimento, comportamento, características psicológicas e contexto socioeconômico.
Entre os elementos ambientais discutidos estão a ampla disponibilidade de alimentos energeticamente densos e altamente palatáveis, além da redução das demandas de atividade física. Esses fatores podem interagir com diferenças individuais na regulação da ingestão alimentar.
A genética também parece ter papel relevante. A revisão estima que a variação genética responda por aproximadamente 40% a 50% da variabilidade populacional do peso corporal, embora essa estimativa varie conforme o grau de adiposidade. Os autores ressaltam, entretanto, que hereditariedade não significa determinação absoluta: a expressão da predisposição genética pode depender do ambiente alimentar.
O cérebro participa do controle do peso corporal
Um dos conceitos centrais da revisão é que o cérebro funciona como um importante regulador da homeostase energética. Entre os circuitos envolvidos estão neurônios localizados no núcleo arqueado do hipotálamo, particularmente a proteína relacionada ao agouti (AgRP) e a pró-opiomelanocortina (POMC).
Os neurônios AgRP são associados à promoção da ingestão alimentar. Sua ativação pode aumentar a alimentação e reduzir o gasto energético. Já a ativação prolongada dos neurônios POMC contribui para a inibição da ingestão. Esses sistemas recebem sinais metabólicos e hormonais, incluindo informações relacionadas à leptina, insulina, grelina, amilina e GLP-1.
Isso ajuda a compreender por que fome e saciedade não dependem exclusivamente de decisões conscientes. Parte importante da regulação da ingestão alimentar ocorre por mecanismos neurais que funcionam abaixo do nível da percepção consciente e integram sinais homeostáticos e relacionados à recompensa alimentar.

Qual é o papel da leptina na perda e na recidiva de peso?
A leptina é um hormônio produzido pelo tecido adiposo e atua como um importante sinal relacionado às reservas energéticas. No hipotálamo, sua sinalização reduz a atividade orexigênica dos neurônios AgRP e favorece mecanismos relacionados aos neurônios POMC.
Um ponto particularmente relevante para a clínica é que a redução da massa adiposa acompanha-se de redução dos níveis de leptina. A revisão considera essa diminuição um dos possíveis mecanismos envolvidos no aumento do impulso alimentar observado durante a perda de peso e na posterior recidiva.
Portanto, a recidiva após emagrecimento não deve ser interpretado automaticamente como ausência de esforço ou de disciplina. Existem respostas fisiológicas capazes de aumentar a ingestão energética quando o organismo detecta uma condição de déficit energético.
Por que é tão difícil manter o peso perdido?
A revisão diferencia dois fenômenos: o desenvolvimento da obesidade e a resistência à perda de peso depois que a obesidade já está estabelecida.
Durante o desenvolvimento da obesidade, os mecanismos que normalmente limitariam o aumento do peso podem não compensar adequadamente o ambiente obesogênico. Depois que um novo estado de maior adiposidade é estabelecido, entretanto, o organismo parece apresentar respostas que dificultam sua redução.
Durante intervenções para emagrecimento, a perda de peso tende a desacelerar e pode alcançar um platô. Os autores interpretam esse comportamento como compatível com mecanismos de feedback negativo que se opõem à redução da massa corporal. Quando a intervenção é retirada, também pode ocorrer aumento da ingestão energética e outras adaptações que favorecem o retorno do peso.
Esse modelo ajuda a explicar por que uma redução constante da ingestão energética não produz necessariamente uma perda de peso linear ao longo do tempo.
E os medicamentos para tratar a obesidade?
A compreensão dos circuitos de controle da ingestão alimentar também ajuda a contextualizar o sucesso dos medicamentos baseados em incretinas.
O GLP-1 participa de circuitos que reduzem a ingestão alimentar. Segundo a revisão, neurônios produtores de GLP-1 no núcleo do trato solitário e outros componentes da sinalização do GLP-1 interagem com redes responsáveis pelo controle da ingestão. Agonistas do receptor de GLP-1 podem atuar nesses sistemas e contribuir para a redução da ingestão alimentar.
A revisão também aborda terapias baseadas em diferentes combinações hormonais, incluindo GLP-1 e GIP, mostrando como o conhecimento da fisiologia da homeostase energética pode orientar estratégias farmacológicas mais eficazes.
Entretanto, a existência de mecanismos fisiológicos de oposição à perda de peso reforça a importância de considerar a obesidade como uma condição crônica que pode exigir estratégias terapêuticas prolongadas, em vez de intervenções pontuais.
O que isso muda na prática clínica?
Para o médico, uma das principais mensagens da revisão é que a trajetória do peso deve ser interpretada dentro de um contexto fisiológico mais amplo.
O peso corporal não representa exclusivamente a quantidade de calorias consumidas ou gastas em determinado período. Alterações na massa corporal modificam o gasto energético, a ingestão alimentar e diversos sinais hormonais e neurais. Além disso, peso corporal e composição corporal não são conceitos equivalentes: mudanças no peso envolvem tanto massa gorda quanto massa livre de gordura, com diferenças individuais e relacionadas ao sexo.
Essa perspectiva também reforça a importância de não utilizar o IMC isoladamente para interpretar toda a complexidade da adiposidade. A revisão destaca limitações do IMC como marcador individual de gordura corporal e discute a importância da composição e da distribuição do tecido adiposo.
Conclusão: regulação do peso corporal na obesidade
A obesidade pode ser compreendida de maneira mais adequada quando a regulação do peso corporal é analisada como um fenômeno neuroendócrino complexo. O organismo integra sinais relacionados à disponibilidade energética, tecido adiposo, trato gastrointestinal, comportamento alimentar e ambiente.
A revisão de Levin, Geary e Lutz destaca uma questão particularmente importante para a prática clínica: depois que a obesidade se estabelece, a redução do peso pode desencadear respostas fisiológicas que favorecem a recuperação da adiposidade. Esse fenômeno ajuda a compreender por que a manutenção do emagrecimento pode ser tão desafiadora e por que o acompanhamento da obesidade não deve se limitar à recomendação de restrição alimentar.
Para o profissional que atua em Nutrologia, compreender esses mecanismos é essencial para interpretar de forma mais precisa a resposta individual ao tratamento, reconhecer as limitações das intervenções e acompanhar o paciente com uma perspectiva fisiológica e longitudinal. A atualização contínua sobre os mecanismos de regulação energética é, portanto, parte importante da prática baseada em evidências.
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Referência científica principal
LEVIN, Barry E.; GEARY, Nori; LUTZ, Thomas A. The (dys)regulation of energy storage in obesity. Physiological Reviews, v. 105, n. 3, p. 803–895, 2025. DOI: 10.1152/physrev.00002.2024.
