A pós-menopausa é um momento de transição marcante na vida da mulher, tanto no contexto pessoal como metabólico. Com a queda dos níveis de estrogênio, ocorrem mudanças na composição corporal, redução de massa muscular e acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal. Esse cenário favorece um estado de inflamação crônica de baixo grau, reconhecido como um dos principais elos entre obesidade e doenças cardiovasculares (DCV) nessa fase da vida. Para o médico que atua com nutrologia, entender essa fisiopatologia e as ferramentas terapêuticas não farmacológicas disponíveis é essencial para uma abordagem clínica mais completa.
Um estudo controlado e randomizado, publicado na revista Scientific Reports, investigou justamente esse ponto: os efeitos de um programa de caminhada de intensidade moderada, ao longo de 12 semanas, sobre a composição corporal e sobre marcadores inflamatórios vasculares em mulheres pós-menopáusicas com obesidade. A pesquisa acompanhou 26 mulheres entre 68 e 72 anos, divididas em grupo controle e grupo exercício, avaliando parâmetros como peso, IMC, percentual de gordura corporal, proteína C-reativa de alta sensibilidade (hs-CRP), interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e fator de crescimento endotelial vascular (VEGF).
Artigo referência: Moderate intensity walking exercises reduce the body mass index and vascular inflammatory factors in postmenopausal women with obesity: a randomized controlled trial – PMC
A relevância prática desse tipo de evidência para o médico nutrólogo é significativa: trata-se de uma intervenção simples, acessível e de baixo custo, capaz de gerar impacto mensurável em marcadores que se relacionam diretamente ao risco cardiovascular. Isso reforça o papel da atividade física estruturada como parte do arsenal terapêutico em nutrologia, ao lado das estratégias nutricionais e, quando indicado, farmacológicas.
Por que a obesidade pós-menopausa aumenta o risco cardiovascular?
Após a menopausa, a redução do estrogênio favorece a redistribuição de gordura corporal, com aumento proporcional do tecido adiposo e diminuição da massa magra. Esse processo altera o metabolismo basal e contribui para o ganho de peso, mesmo sem grandes mudanças nos hábitos alimentares.
O tecido adiposo em excesso não é apenas um reservatório energético: ele atua como órgão endócrino, secretando citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6. Esses mediadores estimulam a produção hepática de hs-CRP, um marcador amplamente utilizado na prática clínica para estimar o risco cardiovascular. Esse conjunto de alterações favorece disfunção endotelial, formação de placas ateroscleróticas e, a médio prazo, eventos cardiovasculares.

O que o estudo mostrou sobre a caminhada moderada
No programa avaliado, as participantes do grupo exercício caminharam em média entre 7.000 e 9.999 passos por dia, em ritmo de aproximadamente 100 passos por minuto, com intensidade correspondente a 64–76% da frequência cardíaca máxima. Após 12 semanas, o grupo que se exercitou apresentou:
Melhora da composição corporal
Houve redução estatisticamente significativa de peso corporal, índice de massa corporal e percentual de gordura, além de aumento da massa muscular esquelética. O grupo controle não apresentou alterações relevantes nesses parâmetros.
Redução de marcadores inflamatórios
Os níveis de TNF-α e de hs-CRP diminuíram de forma significativa no grupo que caminhou, enquanto no grupo controle a hs-CRP chegou a aumentar ao final do período observado. Já a IL-6 não apresentou diferença significativa entre os momentos avaliados, embora tenha havido efeito de interação entre os grupos.
VEGF sem alteração significativa
Diferentemente do esperado pela hipótese inicial dos autores, os níveis de VEGF não se modificaram de forma estatisticamente significativa em nenhum dos grupos. Ainda assim, observou-se uma tendência de leve aumento no grupo que praticou caminhada, sugerindo que programas mais prolongados ou de maior intensidade talvez sejam necessários para produzir esse efeito de forma consistente.
Qual a explicação fisiológica para esses achados?
A redução de gordura corporal observada no grupo exercício provavelmente decorre do maior uso de triglicerídeos do tecido adiposo como substrato energético durante e após as sessões de caminhada. Esse processo, mantido ao longo de semanas, reduz progressivamente a massa gorda e, por consequência, diminui a produção de citocinas inflamatórias derivadas do tecido adiposo.
Já a queda da hs-CRP acompanha a redução de TNF-α e IL-6, já que a proteína C-reativa é sintetizada no fígado sob estímulo direto dessas citocinas. Assim, menos tecido adiposo inflamado significa menor estímulo para a síntese hepática de hs-CRP, um raciocínio fisiopatológico coerente e já descrito em outros estudos com populações com obesidade ou com síndrome metabólica.
Quanto ao VEGF, sua regulação parece depender de fatores como intensidade do exercício, tempo total de treinamento e estresse de cisalhamento vascular. A literatura mostra resultados heterogêneos: alguns estudos com caminhada em esteira observaram aumento de VEGF em pacientes com doença arterial periférica, enquanto outros, em mulheres pós-menopáusicas, não encontraram o mesmo padrão, resultado semelhante ao observado nessa pesquisa.
Limitações a considerar na prática clínica
É importante que o médico interprete esses resultados com cautela. O estudo envolveu uma amostra pequena (26 participantes), o que reduz o poder estatístico e limita a generalização dos achados. Além disso, não houve controle dietético formal, o que pode ter influenciado parcialmente os resultados metabólicos. Por fim, a população estudada foi específica, mulheres pós-menopáusicas com obesidade entre 68 e 72 anos, restringindo a extrapolação para homens ou para outras faixas etárias.
Implicações práticas para o médico nutrólogo
Para quem atua ou pretende se especializar em nutrologia, esse tipo de evidência reforça a importância de:
- Indicar atividade física estruturada, como a caminhada, como parte do plano terapêutico em pacientes com obesidade na pós-menopausa;
- Monitorar marcadores inflamatórios (hs-CRP, IL-6, TNF-α) como parte da avaliação de risco cardiovascular em pacientes com obesidade;
- Integrar orientação nutricional e prescrição de exercício de forma complementar, já que a ausência de controle dietético foi apontada como limitação do próprio estudo;
- Considerar a caminhada como intervenção de baixo custo e alta adesão, especialmente em pacientes idosas ou com limitações musculoesqueléticas.
Conclusão
Os achados reforçam que a caminhada de intensidade moderada é uma ferramenta terapêutica simples, segura e eficaz para melhorar a composição corporal e reduzir marcadores inflamatórios vasculares em mulheres com obesidade na pós-menopausa. Embora o efeito sobre o VEGF ainda não tenha sido totalmente esclarecido, o conjunto de resultados sustenta a recomendação de exercício físico regular como estratégia preventiva de doenças cardiovasculares nessa população.
Para o médico que deseja aprofundar esse tipo de abordagem, unindo nutrição, metabolismo e prevenção cardiovascular de forma baseada em evidências, investir em formação continuada em nutrologia é um caminho natural para transformar esse conhecimento científico em prática clínica de qualidade.
É médico e quer saber mais sobre Fisiologia e Suplementação? Clique nesse link e conheça os nossos Cursos de Fisiologia e Suplementação em Nutrologia do Exercício: Cursos Nutrologia do Exercício – Nutrology Academy
Referência
SON, Woo-Hyeon; PARK, Hyun-Tae; JEON, Byeong Hwan; HA, Min-Seong. Moderate intensity walking exercises reduce the body mass index and vascular inflammatory factors in postmenopausal women with obesity: a randomized controlled trial. Scientific Reports, v. 13, n. 20172, 2023. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-023-47403-2. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-023-47403-2. Acesso em: 15 jul. 2026.
