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Entenda a Importância do Exercício para o Paciente com Obesidade

A obesidade é, hoje, uma das maiores emergências de saúde pública do planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, sua prevalência dobrou entre 1990 e 2022, e as projeções indicam que aproximadamente metade da população dos Estados Unidos terá obesidade até 2030. No Brasil, o cenário é igualmente preocupante: dados do Vigitel mostram crescimento contínuo das taxas de excesso de peso em todas as faixas etárias. Para o médico que atua na linha de frente do manejo clínico, compreender os mecanismos que conectam obesidade, metabolismo e exercício físico é hoje uma competência fundamental. Uma revisão publicada em 2025 no periódico Endocrine Reviews por James & Stanford, Obesity and Exercise: New Insights and Perspectives (DOI: 10.1210/endrev/bnaf017), sintetiza as evidências mais recentes sobre o tema e serve de base científica para este texto.

Artigo referência: Obesity and Exercise: New Insights and Perspectives – PMC

Por Que a Obesidade Compromete Múltiplos Órgãos ao Mesmo Tempo

A obesidade não é apenas um problema de excesso de tecido gorduroso. Trata-se de uma condição que reorganiza profundamente a função de órgãos-chave do metabolismo. O tecido adiposo branco (TAB), o tecido adiposo marrom (TAM), o fígado e o músculo esquelético são afetados de maneira coordenada e interdependente.

No TAB, a expansão excessiva de adipócitos, tanto em volume (hipertrofia) quanto em número (hiperplasia), desencadeia um estado inflamatório crônico de baixo grau, com infiltração de macrófagos pró-inflamatórios, elevação de TNF-α e IL-6 e liberação de adipocinas deletérias como leptina e resistina. Esse processo compromete a biogênese mitocondrial, reduz a oxidação de ácidos graxos e induz resistência à insulina no próprio tecido adiposo.

No fígado, o aumento de ácidos graxos circulantes proveniente do TAB disfuncional leva ao acúmulo ectópico de lipídios e ao desenvolvimento progressivo da MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica). No músculo esquelético, responsável pela maioria da captação de glicose estimulada por insulina em condições normais, a obesidade reduz a sinalização de insulina e prejudica o metabolismo oxidativo.

Compreender essa fisiopatologia integrada é o ponto de partida para qualquer abordagem nutrológica eficaz.

Exercício Físico Como Modulador Molecular da Obesidade

O exercício físico vai muito além da queima calórica. Ele atua como um regulador molecular de múltiplas vias metabólicas simultaneamente, e é exatamente esse entendimento que diferencia o médico nutrólogo bem formado.

Efeitos do Exercício no Tecido Adiposo Branco

No TAB, o exercício reduz a inflamação, melhora a função mitocondrial e modula a secreção de adipocinas de forma favorável. Estudos em roedores mostram que apenas 11 dias de treinamento voluntário em rodas de corrida são suficientes para aumentar a expressão de genes mitocondriais como PGC1α, NRF1, TFAM e UCP1 no tecido adiposo subcutâneo.

Em humanos, o treinamento aeróbico e resistido reduz a adiposidade, o IMC, a gordura corporal percentual e os marcadores inflamatórios circulantes como IL-6 e TNF-α. Três semanas de treinamento aeróbico já são suficientes para promover adaptações moleculares no TAB subcutâneo de mulheres com sobrepeso, mesmo sem redução significativa de massa gorda.

Entnda a importancia do Exercício para o paciente com obesidade
O exercício regular apresenta beneficio real para o paciente com obesidade

O Papel das Adipocinas Induzidas pelo Exercício

Duas adipocinas merecem atenção especial na prática nutrológica: a adiponectina e o TGF-β2.

A adiponectina, com propriedades anti-inflamatórias, anti-obesidade e antidiabéticas, está reduzida em indivíduos com obesidade e diabetes. O treinamento físico eleva seus níveis plasmáticos, melhora a sensibilidade à insulina e reduz triglicerídeos. Notavelmente, apenas 2 a 3 sessões de exercício aeróbico podem elevar a adiponectina em até 260%, independentemente de mudança no peso corporal.

O TGF-β2 é uma adipocina recentemente identificada como mediadora dos efeitos metabólicos do exercício. Estudos mostraram que o transplante de TAB subcutâneo de camundongos treinados para camundongos sedentários melhora a tolerância à glicose, e esse efeito é mediado pelo TGF-β2. Em humanos, 12 semanas de treinamento de endurance aumentam a expressão de TGF-β2 no TAB subcutâneo.

Exercício, Fígado e MASH

O exercício é uma das intervenções mais eficazes para o manejo da MASH. Em humanos, o treinamento resistido, aeróbico de alta intensidade ou aeróbico contínuo moderado já reduzem o conteúdo lipídico hepático, a rigidez do fígado e marcadores inflamatórios como leptina e ferritina. Um protocolo simples de flexões e agachamentos por 12 semanas ou caminhada de 200 minutos semanais por um ano correlacionou-se com regressão de esteatose hepática e fibrose.

Terapias Combinadas: GLP-1, Cirurgia Bariátrica e Exercício

Uma fronteira cada vez mais relevante para o médico nutrólogo é a combinação de intervenções farmacológicas ou cirúrgicas com o exercício físico.

Os agonistas de GLP-1 (liraglutida, semaglutida, tirzepatida) produzem resultados expressivos quando associados ao exercício. Em um ensaio clínico randomizado de 1 ano, a combinação de liraglutida 3,0 mg/dia com exercício moderado a vigoroso 4 vezes por semana gerou redução de 9,5 kg de peso, redução de 3,9% de gordura corporal e melhora na sensibilidade à insulina. Um acompanhamento de 1 ano pós-intervenção mostrou que o grupo que recebeu a combinação manteve maior perda de peso e menor reganho em comparação ao grupo controle, sugerindo que o exercício pode prolongar os benefícios do GLP-1 mesmo após a suspensão do medicamento.

Na cirurgia bariátrica, o exercício pré-operatório melhora capacidade funcional, força muscular e qualidade de vida, e esses efeitos persistem até 5 meses após a cirurgia. No pós-operatório, programas combinados de treino resistido e aeróbico reduzem a massa gorda, previnem a perda de massa muscular e estão associados a menor reganho de peso a longo prazo.

Genética da Obesidade: O Exercício Pode Modular o Risco?

A obesidade tem determinantes genéticos importantes. Mutações no gene FTO, com frequência de até 46% em europeus ocidentais e 29% em asiáticos,estão associadas a maior IMC e influenciam apetite e oxidação de gordura durante o exercício. A boa notícia: a atividade física regular reduz a associação entre variantes do FTO e o risco de obesidade, sugerindo que o exercício atua como modulador do risco genético.

Mecanismos epigenéticos como metilação do DNA e regulação por microRNAs também são afetados pelo exercício. Uma intervenção de 3 meses de atividade física reduziu os níveis circulantes de miR-146a-5p, com forte correlação com circunferência abdominal e IL-8, abrindo perspectivas para biomarcadores de resposta ao exercício na prática nutrológica.

Conclusão: Exercício para o Paciente com Obesidade

O entendimento dos mecanismos moleculares que conectam exercício, tecido adiposo, fígado e músculo é hoje indispensável para a atuação nutrológica baseada em evidências. Prescrever exercício com precisão terapêutica, considerando modalidade, intensidade, duração, sexo biológico, status metabólico e combinação com farmacoterapia ou cirurgia bariátrica, exige uma formação sólida e atualizada.

A Nutrology Academy oferece pós-graduações e programas de formação especializados em Nutrologia da Obesidade, Nutrologia do Exercício e áreas correlatas, desenvolvidos para médicos que desejam transformar ciência de ponta em prática clínica de excelência.

Referência principal: James NM, Stanford KI. Obesity and Exercise: New Insights and Perspectives. Endocrine Reviews. 2025;46(6):763–789. DOI: 10.1210/endrev/bnaf017

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