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Hidratação na Maratona: O Que a Ciência Revela

Hidratação como Variável Clínica Negligenciada no Esporte Recreativo

A prática de corridas de longa distância cresceu de forma expressiva no Brasil e no mundo. Nesse contexto, a hidratação na maratona emerge não apenas como tema de performance, mas como variável clínica de relevância direta para a prática médica.

Um estudo transversal publicado em agosto de 2025 na Frontiers in Nutrition (Zhang et al., 2025, doi: 10.3389/fnut.2025.1621966) investigou comportamentos, conhecimentos e atitudes relacionados à hidratação em 461 maratonistas recreativos chineses. Os resultados são clinicamente preocupantes: 72,5% dos participantes não atingiam a ingestão diária mínima recomendada de líquidos, e a principal causa identificada foi a falta de conhecimento científico sobre hidratação. Para o médico nutrólogo, esse dado transforma o consultório em um ponto de intervenção estratégica, e esta leitura demonstra por quê.

Artigo referência: Hydration behaviors, knowledge, and attitudes among Chinese recreational marathon runners: a cross-sectional study – PMC


O Que É Desidratação Crônica Subclínica e Por Que o Médico Deve Identificá-la

A desidratação não se manifesta sempre de forma aguda. A literatura aponta que muitos atletas recreativos iniciam o treino já em déficit hídrico, sem qualquer percepção clínica desse estado, um fenômeno denominado desidratação crônica subclínica.

Do ponto de vista fisiológico, a manutenção do equilíbrio hídrico dinâmico durante o exercício prolongado é desafiada por múltiplos fatores: temperatura ambiental, umidade relativa, intensidade do esforço e variabilidade individual na taxa de sudorese, que pode atingir de 1,2 a 2,5 L/h em adultos durante exercícios de alta intensidade. A depleção de sódio associada (até 80 mmol/L no suor) representa um fator de risco adicional para hiponatremia, câimbras de calor e exaustão por calor.

No estudo de Zhang et al. (2025), 22,3% dos participantes relataram ingestão hídrica diária inferior a 800 mL, valor alarmantemente abaixo dos 1.500 a 1.700 mL recomendados pelas diretrizes nutricionais chinesas para adultos saudáveis. Em termos clínicos, atletas que partem para uma prova já hipovolêmicos apresentam risco aumentado de queda de desempenho, estresse cardiovascular e comprometimento da termorregulação.


Lacunas de Conhecimento: O Principal Inimigo da Hidratação Adequada

Um dos achados mais relevantes do estudo para a prática nutrológica diz respeito ao conhecimento, ou à ausência dele. Apenas 21,5% dos corredores sabiam qual era a ingestão hídrica diária recomendada. Menos da metade (46,8%) reconhecia a necessidade de reidratação pós-exercício, e somente 53,1% identificava corretamente a coloração da urina como indicador de hidratação adequada.

Por outro lado, os participantes demonstraram maior familiaridade com conceitos como “sede indica que o corpo já está desidratado” (78,1%) e a necessidade de hidratação durante o exercício (71,1%). Esse padrão sugere um conhecimento fragmentado: os corredores captam informações básicas por canais informais, amigos e familiares (54,9%) e redes sociais (45,6%), mas carecem de uma base fisiológica estruturada.

Para o médico nutrológico, esse gap representa uma oportunidade de intervenção direta na consulta, com impacto real sobre saúde e performance do paciente atleta recreativo.


Comportamento Hídrico Antes, Durante e Após a Corrida: O Que os Dados Revelam

O estudo estratificou o comportamento de reidratação em três momentos da prova — pré, durante e pós-corrida, e os dados merecem atenção clínica detalhada.

Antes da prova: 57,7% dos participantes consumiram apenas 150 mL de líquido, principalmente água pura, antes da largada. As diretrizes do American College of Sports Medicine (ACSM) recomendam a ingestão de fluidos com sódio na proporção de 5 a 10 mL/kg cerca de 2 horas antes da competição. A combinação de volume insuficiente e ausência de eletrólitos indica que grande parte dos corredores já parte da largada em estado de desidratação pré-existente.

Durante a prova: A maioria dos participantes consumiu apenas 150 mL de líquido durante a corrida, muito aquém dos 400 a 800 mL/h recomendados para atividades de endurance. Bebidas esportivas foram a escolha predominante nessa fase (56,6%), o que é tecnicamente adequado, dado que a reposição de carboidratos e eletrólitos apoia a performance sustentada e a absorção hídrica.

Após a prova: Quase metade dos corredores repôs apenas 150 mL pós-prova. A recomendação fisiológica é de 125 a 150% do volume de líquido perdido durante o exercício, com reposição de sódio para restaurar o equilíbrio eletrolítico. Notavelmente, corredoras do sexo feminino apresentaram maior tendência ao consumo de bebidas carbonatadas pós-prova (26% vs. 12,6% dos homens), um padrão potencialmente problemático, dado o impacto negativo dessas bebidas na absorção hídrica e no estresse renal, especialmente em estado de desidratação.


Nível de Performance e Hidratação na Maratona: Uma Relação Direta

Um dos achados mais consistentes do estudo foi a associação entre nível de performance atlética e qualidade das práticas de hidratação. Corredores classificados como “Elite Público” apresentaram menor proporção de ingestão hídrica inferior a 800 mL/dia (15,3%) quando comparados aos não certificados (29,3%). Além disso, atletas de maior nível foram significativamente mais propensos a elaborar planos individualizados de hidratação pré-prova.

Essa correlação positiva entre conhecimento, planejamento e nível atlético indica que a educação em hidratação não é apenas informativa, ela é habilitadora de comportamento. Do ponto de vista da medicina do exercício e da nutrologia, isso reforça que intervenções educacionais estruturadas têm potencial de impacto real e mensurável sobre a saúde do atleta recreativo.

hidratação na maratona
Hidratação na maratona: o médico nutrólogo é essencial para conscientizar a população

Hidratação na Maratona: Riscos Clínicos Associados à Hidratação Inadequada

A fisiologia da desidratação no exercício produz uma cascata de alterações clinicamente relevantes. A hipovolemia compromete o volume plasmático, aumenta a frequência cardíaca e reduz a eficiência termorreguladora, fenômenos que, em ambiente quente e úmido, elevam substancialmente o risco de hipertermia induzida por esforço, rabdomiólise e hiponatremia por exercício.

Por outro lado, a hiperidratação com água pura, em especial em corredoras mais lentas e com provas de maior duração, representa risco igualmente relevante de hiponatremia dilucional, potencialmente fatal se não reconhecida precocemente.

O médico nutrólogo está em posição privilegiada para:

  • Avaliar o status hídrico do paciente atleta por meio de marcadores simples como coloração da urina e variação de peso corporal pré e pós-treino;
  • Prescrever protocolos individualizados de reidratação com base em taxa de sudorese estimada, duração do exercício e condições ambientais;
  • Orientar sobre a composição ideal de eletrólitos em bebidas esportivas, especialmente para provas de longa duração.

A Janela de Oportunidade do Consultório de Nutrologia

O estudo de Zhang et al. (2025) confirma um dado epidemiológico consistente: a maioria dos atletas recreativos obtém informações sobre hidratação de fontes não especializadas. Apenas 16,3% dos corredores tinham acesso a nutricionistas esportivos e 28,6% a treinadores. Em contraste, 93,3% dos participantes demonstraram disposição para modificar seus hábitos de hidratação para melhorar o desempenho.

Essa combinação, alta motivação e baixo acesso a orientação qualificada, configura uma janela de oportunidade clínica única para o médico nutrólogo. A consulta de nutrologia voltada ao atleta recreativo não se limita à prescrição de suplementos: ela envolve educação fisiológica, construção de protocolos individualizados e monitoramento longitudinal de marcadores de hidratação.


Hidratação na Maratona: Nutrologia do Exercício Como Especialidade de Alta Demanda Clínica

Os dados apresentados neste artigo evidenciam que a desidratação em atletas recreativos é um problema prevalente, multifatorial e, acima de tudo, evitável com educação e acompanhamento médico adequados. Para o médico interessado em ampliar sua atuação clínica com base científica sólida, a nutrologia aplicada ao exercício representa uma das áreas de maior crescimento e impacto na medicina contemporânea.

Compreender a fisiologia da hidratação, os protocolos de reposição hídrica e eletrolítica, e os determinantes comportamentais do atleta recreativo são competências que diferenciam o profissional no mercado médico atual, e que podem ser desenvolvidas por meio de uma formação estruturada em nutrologia.

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Referência: Zhang J, Chen Y, Zhao X, Li X, Wen W, Wu W, Zou M, Qiu J. Hydration behaviors, knowledge, and attitudes among Chinese recreational marathon runners: a cross-sectional study. Front. Nutr. 2025;12:1621966. doi: 10.3389/fnut.2025.1621966


Este conteúdo é de natureza exclusivamente educacional, destinado a profissionais médicos. Não substitui protocolos clínicos individualizados.

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