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Nutrologia Esportiva: Como o Médico Nutrólogo Pode Fazer a Diferença na Maratona

Nutrologia Esportiva: A Maratona Como Modelo Extremo de Fisiologia Humana

A corrida de maratona, 42,195 km de desafio contínuo, é muito mais do que um fenômeno esportivo de massa. Para a medicina, representa um modelo único de estresse fisiológico multissistêmico, capaz de revelar tanto os limites quanto a extraordinária capacidade adaptativa do organismo humano. Milhões de pessoas ao redor do mundo treinam e competem em maratonas, e esse número cresce a cada ano, inclusive no Brasil, onde provas como a Maratona de São Paulo e a Maratona do Rio atraem dezenas de milhares de participantes.

Uma revisão narrativa publicada em 2025 na revista Sports Medicine – Open, conduzida por Braschler et al., analisou 329 estudos científicos para oferecer uma das análises mais abrangentes já publicadas sobre os efeitos fisiológicos e fisiopatológicos da maratona em diferentes sistemas orgânicos. Os achados são ao mesmo tempo encorajadores e desafiadores, e têm implicações diretas para a prática clínica do médico nutrólogo.

Artigo referência: Physiology and Pathophysiology of Marathon Running: A narrative Review – PMC


Benefícios Sistêmicos do Treinamento de Maratona

O treinamento regular para maratonas produz adaptações positivas em praticamente todos os sistemas do organismo. Do ponto de vista cardiovascular, corredores apresentam perfil lipídico mais favorável, com elevação do HDL-colesterol e redução do LDL e triglicerídeos, menor pressão arterial de repouso, melhor função endotelial e adaptações cardíacas conhecidas como “coração do atleta”, com aumento do volume ventricular e do débito cardíaco.

No sistema musculoesquelético, o treinamento aumenta a densidade mineral óssea, melhora o metabolismo energético da musculatura esquelética, favorece a composição das fibras musculares e parece reduzir a prevalência de osteoartrite nos membros inferiores. Há também evidências de benefícios cognitivos, com efeitos neuroprotetores relevantes especialmente em populações mais idosas, além de melhora documentada dos sintomas depressivos e do bem-estar geral.

Para o sistema gastrointestinal, o exercício regular melhora a motilidade intestinal, reduz o risco de câncer colorretal, diverticulite e colelitíase. No fígado, o exercício moderado melhora marcadores da doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), sensibilidade à insulina e reduz o risco de carcinoma hepatocelular.


Os Riscos Agudos: O Que Acontece Durante e Após a Prova

Se o treinamento progressivo traz benefícios, a prova em si impõe um estresse agudo considerável ao organismo. Entre os achados mais relevantes da revisão científica, destaca-se a lesão renal aguda (LRA), que ocorre em 40% a 82% dos participantes de maratona, com evidências de lesão tubular aguda em até 75% dos corredores. Esse dado, frequentemente ignorado na prática clínica, tem implicações diretas para o acompanhamento nutricional e hídrico do atleta.

A hiponatremia associada ao exercício (HAE), decorrente de ingestão excessiva de líquidos hipotônicos e ativação inadequada do hormônio antidiurético, é outra complicação frequente, com prevalência entre 1% e 20% dos finishers. Em casos graves, pode evoluir para edema cerebral, convulsões e óbito. A estratégia preventiva recomendada inclui ingestão de sódio (~1–2 g/h) e volume hídrico individualizado (~500–1000 mL/h).

Marcadores de lesão hepática como AST e ALT elevam-se significativamente após a maratona, com pico em 48 horas, e a creatina quinase (CK) pode atingir cinco a dez vezes o valor basal nas primeiras 24 horas, indicativos de rabdomiólise de esforço. Esses dados são fundamentais para o médico que acompanha atletas e precisa diferenciar alterações laboratoriais fisiológicas de eventos patológicos.


Sistema Imunológico, Inflamação e a “Janela Aberta”

Um dos achados mais comentados na literatura é a imunossupressão transitória que ocorre nas 3 a 72 horas após uma maratona, o chamado período de “janela aberta”. Nesse intervalo, há redução de linfócitos, queda na atividade citotóxica das células NK, diminuição de IgA salivar e desequilíbrio entre células Th1/Th2, favorecendo infecções do trato respiratório superior (ITRS).

O risco de ITRS após uma maratona é maior do que em corredores que não participaram da prova. Até o momento, nenhuma intervenção nutricional isolada demonstrou eliminar esse risco de forma consistente. Contudo, a ingestão adequada de carboidratos durante a corrida parece atenuar a resposta de cortisol e reduzir parcialmente a imunodepressão, mais um argumento para a individualização do plano nutricional.

Médico nutrologista avaliando corredor de maratona
Médico Nutrólogo pode ser peça chave para melhorar o desempenho do corredor de maratona.

O Papel Estratégico da Nutrologia Esportiva no Cuidado ao Corredor

Diante desse cenário, fica evidente que o acompanhamento do corredor de maratona vai muito além da prescrição de suplementos. O médico nutrólogo é o profissional com formação para integrar as dimensões metabólicas, hormonais, imunológicas e gastrointestinais do esporte de endurance em uma abordagem verdadeiramente clínica.

Entre as condutas de maior impacto na prática estão: a investigação e correção de deficiências de ferro, especialmente em mulheres, onde a prevalência de deficiência férrica chega a 28%, a orientação sobre estratégias de carbo-loading pré-prova, o manejo do déficit energético relativo (RED-S) e a avaliação de risco cardiovascular individualizado, incluindo a pesquisa de calcificação coronariana em corredores experientes acima de 50 anos.

O monitoramento laboratorial pós-prova também é uma responsabilidade médica: saber interpretar elevações transitórias de troponina, CK-MB, creatinina e enzimas hepáticas, sem medicalizar o fisiológico, mas sem negligenciar o patológico, exige formação sólida em fisiologia do exercício integrada à clínica.


Conclusão: Nutrologia Esportiva – Uma Fronteira em Expansão

A ciência confirma o que muitos médicos já percebem na prática: a maratona é segura para a maioria das pessoas, e seus benefícios superam os riscos quando há preparo adequado e acompanhamento qualificado. Mas ela também expõe lacunas importantes no cuidado ao atleta, lacunas que o médico com formação em nutrologia está em posição privilegiada para preencher.

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Referência: Braschler L, Nikolaidis PT, Thuany M, Chlíbková D, Rosemann T, Weiss K, Wilhelm M, Knechtle B. Physiology and Pathophysiology of Marathon Running: A Narrative Review. Sports Medicine – Open. 2025;11:10. https://doi.org/10.1186/s40798-025-00810-3

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