A busca por estratégias ergogênicas seguras e baseadas em evidência é uma das principais demandas do médico que atua com atletas e praticantes de atividade física. Intervenções nutricionais pré-competição, como a suplementação de cafeína, ocupam posição de destaque nesse cenário, exigindo do profissional um conhecimento técnico robusto sobre mecanismos de ação, dosagem, individualização e segurança.
Um ensaio clínico randomizado duplo-cego publicado em maio de 2025 na revista Nutrients (Bougrine et al., 2025, DOI: 10.3390/nu17101613) investigou os efeitos independentes e combinados da suplementação de cafeína (6 mg·kg⁻¹) e da música motivacional autosselecionada durante o aquecimento sobre a performance anaeróbica em 17 jogadoras de handebol feminino. Os resultados reforçam a relevância clínica dessas intervenções e abrem um campo importante de aplicação para o médico nutrológo que atua na nutrologia do esporte.
Cafeína Como Ergogênico: Mecanismo de Ação e Base Fisiológica
A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é um dos suplementos mais estudados no contexto esportivo. Seu principal mecanismo ergogênico envolve o bloqueio dos receptores de adenosina no sistema nervoso central, reduzindo a percepção de fadiga, aumentando o estado de alerta e promovendo maior liberação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina.
No contexto anaeróbico, a cafeína potencializa a liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático, melhora o acoplamento excitação-contração muscular e estimula a ativação da bomba Na⁺/K⁺, mecanismos que se traduzem em maior força, potência e capacidade de sprint repetido. Além disso, a cafeína estimula o metabolismo glicolítico e favorece a liberação de catecolaminas, aumentando a oferta de ATP para esforços de alta intensidade.
Para atletas de esportes coletivos, como handebol e vôlei, onde predominam esforços intermitentes de alta intensidade, esse perfil fisiológico torna a cafeína uma ferramenta de prescrição altamente relevante.
Qual a Dose Ideal de Cafeína para Atletas? O Que os Estudos Mostram
A literatura científica consolidada recomenda doses entre 3 e 6 mg·kg⁻¹ para atletas de esportes coletivos, com o pico de concentração plasmática ocorrendo aproximadamente 60 minutos após a ingestão oral. No estudo de Bougrine et al. (2025), a dose de 6 mg·kg⁻¹ administrada 60 minutos antes do exercício produziu melhoras significativas em todas as variáveis de performance avaliadas, salto vertical com contramovimento (CMJ), teste de agilidade modificado (MAT) e capacidade de sprint repetido (RSA), em comparação ao placebo.
É importante destacar que a eficácia da cafeína pode ser influenciada por fatores individuais, hábito de consumo, horário de administração, composição corporal e fase do ciclo menstrual em atletas femininas. Para o médico nutrológo, esses fatores constituem variáveis clínicas essenciais para a individualização da prescrição ergogênica.
Música Motivacional como Intervenção Psicofisiológica: Uma Ferramenta Subestimada
Menos explorada clinicamente, mas igualmente relevante, a música motivacional autosselecionada (SSMM) durante o aquecimento constitui uma estratégia de modulação do arousal psicológico com respaldo científico crescente. Ao contrário da cafeína, que eleva o arousal fisiológico diretamente via sistema nervoso central, a música atua sobre estados psicológicos, otimizando o nível de ativação pré-competitivo por meio de mecanismos como aumento da atividade cortical, melhora do humor, da autoeficácia e da focalização atencional.
No estudo analisado, a escuta de música motivacional durante o aquecimento melhorou significativamente os parâmetros de sprint repetido (RSA) das atletas, com redução de 1,4% no tempo médio e 1,6% no tempo de pico em relação ao placebo. Embora esses percentuais possam parecer modestos em termos absolutos, em contextos competitivos de alto nível representam diferenças clinicamente relevantes entre vitória e derrota.
O médico que compreende essa interface entre nutrição, fisiologia do exercício e psicologia esportiva amplia significativamente sua capacidade de intervenção clínica.
Combinação de Cafeína e Música: Efeitos Aditivos e Aplicação Clínica
Um dos achados mais relevantes do estudo de Bougrine et al. (2025) foi que a combinação de cafeína com música motivacional produziu os maiores valores absolutos de performance em todos os parâmetros avaliados, mesmo que sem diferença estatisticamente significativa em relação à cafeína isolada. Esse dado sugere um potencial efeito aditivo entre as duas intervenções, que atuam por vias distintas e complementares: uma fisiológica, outra psicológica.
Do ponto de vista da prescrição médica, isso significa que associar uma estratégia nutricional (cafeína) a uma intervenção comportamental de baixo custo (música autosselecionada) pode ser uma abordagem prática e segura para otimizar a preparação pré-competitiva, especialmente em atletas femininas jovens, nas quais sessões matutinas podem cursar com menor ativação basal.
Outro dado de segurança relevante: os efeitos adversos foram mínimos. Taquicardia, cefaleia e desconforto gastrointestinal foram reportados em menos de 12% das participantes, reforçando o perfil favorável da dose de 6 mg·kg⁻¹ em populações jovens de baixo consumo habitual de cafeína.

Nutrologia do Esporte: Por Que o Médico Precisa de Formação Especializada
A prescrição de ergogênicos nutricionais como a cafeína exige muito mais do que o conhecimento de uma dose. O médico nutrológo precisa dominar farmacocinética, individualização por perfil genético e hormonal, interações com outros suplementos, janela terapêutica, efeitos colaterais dose-dependentes e adaptações específicas para populações especiais, atletas femininas, adolescentes, vegetarianos, entre outros.
A Nutrologia do Esporte é uma das áreas de maior crescimento dentro da especialidade médica, impulsionada pela crescente demanda por performance, longevidade e qualidade de vida ativa. Médicos com formação sólida nessa área estão posicionados para atuar em clubes esportivos, seleções, academias médicas e consultórios de alta performance.
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Conclusão: suplementação de cafeína e performance esportiva
O estudo de Bougrine et al. (2025) reforça que estratégias simples, seguras e baseadas em evidência, como a suplementação de cafeína em dose moderada associada ao aquecimento com música motivacional, são capazes de melhorar significativamente a performance anaeróbica em atletas femininas. Para o médico nutrológo, integrar esses conhecimentos à prática clínica exige formação técnica específica, atualização contínua e compreensão das particularidades fisiológicas de cada paciente-atleta.
A ciência avança. A formação médica precisa acompanhar.
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Referência: Bougrine H, Paillard T, Jebabli N, Ceylan HI, Maitre J, Dergaa I, Stefanica V, Ben Abderrahman A. Ergogenic Effects of Combined Caffeine Supplementation and Motivational Music on Anaerobic Performance in Female Handball Players: A Randomized Double-Blind Controlled Trial. Nutrients. 2025;17(10):1613. DOI: 10.3390/nu17101613 suplementação de cafeína e performance esportiva
