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Tirzepatida e Risco Cardiovascular na Obesidade: O Que a Evidência Atual Revela

Introdução: Por Que o Controle Cardiometabólico na Obesidade Importa

As doenças cardiovasculares (DCV) representam um dos maiores desafios da saúde pública global, respondendo por cerca de um terço de todas as mortes registradas em 2019. Nos Estados Unidos, entre 2017 e 2020, quase metade da população adulta apresentava alguma forma de DCV, gerando um custo direto e indireto estimado em mais de 422 bilhões de dólares ao ano. Nesse contexto, a busca por terapias que combinem controle do peso corporal e melhora dos fatores de risco cardiometabólico tornou-se uma prioridade clínica e científica.

É nesse cenário que a tirzepatida, agonista duplo dos receptores GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), de administração semanal, surge como uma das moléculas mais promissoras da medicina atual. Uma revisão narrativa publicada no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism em 2025 por Sattar et al. (DOI: 10.1111/dom.16549) compila as evidências disponíveis sobre os efeitos da tirzepatida em parâmetros cardiometabólicos, incluindo perfil lipídico, pressão arterial, composição corporal, gordura hepática, função renal e risco de progressão para diabetes tipo 2 (DM2), e os resultados são clinicamente relevantes para médicos que atuam com obesidade.

Artigo referência: Tirzepatide and cardiometabolic parameters in obesity: Summary of current evidence – PMC


Tirzepatida e Risco cardiovascular: Por Que a Tirzepatida Vai Além dos GLP-1

A tirzepatida exerce seus efeitos ao ativar simultaneamente os receptores GIP e GLP-1, de forma possivelmente sinérgica. Isso resulta em aumento da secreção de insulina dependente de glicose, inibição do glucagon, retardo transitório do esvaziamento gástrico e, sobretudo, aumento da saciedade com consequente redução da ingestão calórica. Adicionalmente, a tirzepatida demonstrou reduzir a intensidade de compulsão alimentar e a preferência por alimentos hipercalóricos, um aspecto comportamental frequentemente negligenciado no manejo clínico da obesidade.


Efeitos sobre Pressão Arterial e Lipídios: Dados dos Ensaios Clínicos SURMOUNT e SURPASS

Os ensaios clínicos de fase 3 SURMOUNT-1, SURMOUNT-2, SURMOUNT-3 e SURMOUNT-4 demonstraram, de forma consistente, que a tirzepatida promove reduções clinicamente significativas em pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD), triglicerídeos, LDL-colesterol e elevações de HDL-colesterol em comparação ao placebo.

Em pessoas com obesidade sem DM2, as reduções placebo-ajustadas após 72 semanas incluíram:

  • Redução de 6,9 a 9,2 mmHg na PAS
  • Redução de 3,8 a 5,5 mmHg na PAD
  • Redução de 21,2 a 28,0% nos triglicerídeos
  • Redução de 7,6 a 11,5% no LDL-C
  • Aumento de 2,6 a 11,4% no HDL-C

Para pacientes com obesidade e DM2, os resultados foram ainda mais expressivos para a pressão arterial e triglicerídeos, com reduções de até 12,6 mmHg na PAS e 26,3% nos triglicerídeos. Uma análise post hoc do SURMOUNT-1 estimou que, após 72 semanas, o risco previsto de 10 anos para doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) foi significativamente reduzido com tirzepatida em comparação ao placebo, com chances 2,4 vezes maiores de melhora do perfil de risco cardiovascular.


Composição Corporal e Gordura Hepática: Além da Balança

A perda de peso por si só já confere benefícios cardiometabólicos, mas a qualidade dessa perda importa. Um subestudo do SURMOUNT-1 com absorciometria de dupla energia (DEXA) mostrou que a tirzepatida promoveu redução média de 33,9% da massa gorda total, contra 8,2% no placebo. Além disso, a razão entre gordura total e massa magra melhorou de 0,93 para 0,70 com tirzepatida, uma melhora significativa na composição corporal global.

No subestudo de ressonância magnética do SURPASS-3, a tirzepatida reduziu significativamente o conteúdo de gordura hepática (diferença estimada de −4,71%) e os volumes de tecido adiposo visceral (TAV) e subcutâneo abdominal (TASA) em relação à insulina degludeca, que, por sua vez, aumentou ambos os depósitos. A gordura hepática é um marcador-chave de risco metabólico e inflamatório, tornando esses dados altamente relevantes para a prática clínica.


Tirzepatida e Prevenção do Diabetes Tipo 2: Um Resultado Notável

Um dos dados mais impactantes do estudo de 3 anos do SURMOUNT-1 foi a redução de 94% no risco de progressão para DM2 entre participantes com pré-diabetes e obesidade tratados com tirzepatida (hazard ratio: 0,06; IC 95%: 0,0 a 0,10; p < 0,001), em comparação ao placebo (1,2% vs. 12,6%). Adicionalmente, 92% dos participantes com pré-diabetes que usaram tirzepatida reverteram para normoglicemia de forma sustentada.

Esse dado é especialmente relevante considerando que a hiperglicemia é um fator de risco cardiovascular independente, e que prevenir o DM2 em pacientes com obesidade impacta diretamente na morbimortalidade cardiometabólica a longo prazo.

tirzepatida e risco cardiovascular: parâmetros cardiometabólicos melhorados pela tirzepatida em pacientes com obesidade: pressão arterial, lipídios, HbA1c, função renal e composição corporal — evidências de ensaios clínicos SURMOUNT e SURPASS."
Tirzepatida e risco cardiovascular: fármaco é uma ferramenta poderosa

Função Renal: Evidências Preliminares Promissoras

A obesidade é fator de risco independente para doença renal crônica (DRC). Análises post hoc dos estudos SURPASS-4, SURMOUNT-2 e de uma análise poolada dos SURPASS 1–5 indicaram que a tirzepatida está associada a menor taxa de declínio da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e a reduções clinicamente significativas na relação albumina/creatinina urinária (UACR) — um marcador sensível de lesão renal. O estudo clínico TREASURE-CKD (NCT05536804) está em andamento para avaliar esses desfechos com maior rigor metodológico.


Insuficiência Cardíaca: O Ensaio SUMMIT

O estudo SUMMIT, um ensaio clínico randomizado de fase 3, avaliou a tirzepatida em adultos com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) e obesidade. Os resultados mostraram redução de 38% no risco relativo de morte cardiovascular ou evento de piora da insuficiência cardíaca (IC 95%: 5% a 59%; p = 0,026). Os participantes também relataram melhora da tolerância ao exercício e redução dos níveis de proteína C-reativa de alta sensibilidade (PCR-as) — biomarcador inflamatório central na fisiopatologia da ICFEp.


Segurança: O Que Esperar na Prática Clínica

O perfil de segurança da tirzepatida é consistente com o de outros agonistas GLP-1. Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais (náusea, diarreia, vômito, constipação), geralmente transitórios e de intensidade leve a moderada, com maior frequência no início do tratamento e nas escaladas de dose. Uma meta-análise de 12 ensaios clínicos randomizados confirmou que o risco de eventos adversos sérios com tirzepatida é comparável aos agonistas GLP-1, e que o risco de hipoglicemia é significativamente menor do que com insulina.


Perspectivas: O Que Ainda Está por Vir

Os ensaios SURPASS-CVOT (NCT04255433) e SURMOUNT-MMO (NCT05556512) estão em andamento e fornecerão as evidências definitivas sobre a capacidade da tirzepatida de reduzir eventos cardiovasculares maiores (MACE) em pessoas com DM2 e em adultos com obesidade, respectivamente. Esses resultados têm o potencial de consolidar a tirzepatida como uma das principais ferramentas terapêuticas no manejo cardiovascular e metabólico da obesidade.


Conclusão: Tirzepatida e Risco Cardiovascular

A tirzepatida representa um avanço significativo no arsenal terapêutico disponível para médicos que atuam com obesidade e suas comorbidades. As evidências atuais, ainda que majoritariamente derivadas de análises post hoc e ensaios com desfechos substitutos, apontam para benefícios sustentados e clinicamente relevantes em pressão arterial, lipídios, composição corporal, gordura hepática, função renal, prevenção do DM2 e insuficiência cardíaca.

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