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Cafeína e Performance Esportiva: O Que Todo Médico Precisa Saber Sobre Tolerância e Ergogenicidade

A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é um dos suplementos ergogênicos mais estudados e utilizados no mundo. Consumida diariamente por aproximadamente 80% da população global e utilizada por mais de 70% dos atletas antes ou durante competições esportivas, ela se consolidou como um recurso amplamente adotado na prática clínica da nutrologia do exercício. Seus mecanismos de ação incluem o antagonismo dos receptores de adenosina A1 e A2A, aumento da liberação de norepinefrina e dopamina, melhora da atenção e redução da percepção de esforço, fadiga e dor durante o exercício.

No entanto, um ponto crítico, e ainda pouco explorado na prática médica, é a influência da habituação à cafeína e do nível de treinamento físico sobre sua eficácia ergogênica. Um estudo publicado no periódico Sports Health em 2025, conduzido por Khodadadi et al. (DOI: 10.1177/19417381251315093), investigou justamente essa interação em um desenho experimental duplo-cego, placebo-controlado e contrabalanceado, com 80 homens fisicamente inativos divididos em quatro grupos ao longo de 9 semanas de intervenção. Os resultados trazem implicações diretas para a conduta nutrológica de médicos que atuam com pacientes esportistas.

Artigo referência: Habitual Caffeine Consumption and Training Status Affect the Ergogenicity of Acute Caffeine Intake on Exercise Performance – PMC

Khodadadi D, Azimi F, Eghbal Moghanlou A, et al. Habitual Caffeine Consumption and Training Status Affect the Ergogenicity of Acute Caffeine Intake on Exercise Performance. Sports Health. 2025;17(5):930-941. DOI: 10.1177/19417381251315093


Como a Tolerância à Cafeína Compromete Seus Efeitos Ergogênicos

O estudo demonstrou que o consumo habitual de cafeína em dose moderada (3 mg/kg/dia) leva ao desenvolvimento de um certo nível de tolerância. Após aproximadamente 30 dias de ingestão contínua, os grupos que utilizaram cafeína cronicamente apresentaram redução significativa na responsividade à suplementação aguda, tanto em desempenho aeróbico (teste de corrida de 3 km) quanto anaeróbico (teste de Wingate).

Contudo, um dado clínico relevante: a tolerância reduziu, mas não eliminou completamente o efeito ergogênico da cafeína. Mesmo após 70 dias de uso consecutivo, a cafeína ainda melhorou o desempenho em todos os grupos avaliados. Isso sugere que a substância mantém algum potencial ergogênico mesmo em usuários habituais, o que deve ser levado em consideração na orientação médica individualizada.


Nível de Treinamento Físico Amplifica a Resposta à Cafeína

Um dos achados mais relevantes do estudo é que atletas treinados respondem de forma mais pronunciada à cafeína do que indivíduos sedentários, independentemente do uso habitual do suplemento. Os grupos que realizaram treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) apresentaram maior ergogenicidade à cafeína já a partir de 4 semanas de treinamento, e esse nível de resposta se manteve estável nas semanas seguintes.

Essa evidência reforça a hipótese de que um certo grau de aptidão física é necessário para que a cafeína exerça seu potencial máximo. Possíveis mecanismos incluem maior disciplina mental para exercitar-se em alta intensidade, maior responsividade muscular ao estímulo catecolaminérgico e otimização da saturação de oxigênio muscular induzida pela cafeína. Para o médico nutrológico, essa informação é essencial: a prescrição de cafeína como recurso ergogênico deve considerar o perfil físico do paciente.


suplementação de cafeína e performance esportiva
Suplementação de cafeína e performance esportiva

Estratégias para Contornar a Tolerância: Dose Elevada e Retirada Temporária

Diante da redução da eficácia ergogênica em usuários habituais, o estudo testou duas estratégias compensatórias:

1. Aumento da dose pré-exercício para 6 mg/kg A dose dobrada (6 mg/kg) recuperou o efeito ergogênico da cafeína apenas no grupo de atletas treinados que faziam uso habitual (CAFEXE). Nos não treinados habituais (CAF), o aumento de dose não foi suficiente para compensar a tolerância. Isso indica que a eficiência do aumento de dose é modulada tanto pelo consumo habitual quanto pelo nível de condicionamento físico, um dado que vai diretamente contra a prática comum de simplesmente “aumentar a dose” sem considerar o perfil do paciente.

Vale ressaltar que doses acima de 6 mg/kg não parecem oferecer benefícios adicionais e aumentam o risco de efeitos adversos, o estudo registrou sintomas como taquicardia, náusea, nervosismo e problemas gastrointestinais em participantes que usaram essa dose.

2. Retirada temporária de cafeína (11 dias) A abstinência de curto prazo foi eficaz em ambos os grupos habituais, treinados e não treinados, recuperando de forma significativa a ergogenicidade da cafeína tanto no desempenho aeróbico quanto no anaeróbico. O efeito foi observado após um período de 11 dias de retirada, consideravelmente mais longo do que os 4 dias avaliados em estudos anteriores, o que pode explicar a discrepância de resultados na literatura.

Um ponto prático e clinicamente relevante: a retirada total pode gerar sintomas de abstinência, como cefaleia e fadiga. O estudo sugere que o consumo de pequenas quantidades de cafeína (aproximadamente 15 mg, equivalente a um chá verde leve) durante o período de retirada foi suficiente para atenuar esses sintomas sem comprometer o processo de dessensibilização.


Implicações Clínicas Para o Médico Nutrológico: Cafeína e Performance Esportiva

A integração desses achados à prática clínica nutrológica exige raciocínio individualizado. Algumas condutas que emergem da evidência:

  • Avaliar o consumo habitual de cafeína antes de prescrever suplementação pré-exercício, utilizando ferramentas como o Food Frequency Questionnaire adaptado;
  • Considerar o status de treinamento do paciente como variável moduladora da resposta ergogênica;
  • Orientar períodos de retirada programada (mínimo 11 dias) antes de eventos competitivos importantes em pacientes habituados;
  • Reservar o aumento de dose (até 6 mg/kg) como estratégia exclusiva para atletas treinados, com monitoramento de efeitos adversos;
  • Personalizar a abordagem considerando variáveis genéticas, de sexo e faixa etária, que ainda precisam de mais investigação.

Por Que o Médico Precisa de Formação Especializada em Nutrologia do Exercício

A nutrologia do exercício vai muito além da simples prescrição de suplementos. Compreender como substâncias como a cafeína interagem com variáveis fisiológicas, bioquímicas e comportamentais exige uma formação sólida e baseada em evidências. O médico que domina esse conhecimento é capaz de oferecer orientações mais precisas, seguras e eficazes, diferenciando-se no mercado e ampliando seu impacto clínico.

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