A obesidade, caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo e definida por um índice de massa corporal (IMC) ≥30 kg/m², tem se tornado uma das principais crises de saúde pública em todo o mundo. Além de sua associação consolidada com doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer, a obesidade exerce um impacto profundo sobre a saúde reprodutiva de homens e mulheres, com implicações clínicas que se estendem desde a fertilidade até desfechos maternos e neonatais.
Um exemplo recente e abrangente que sintetiza essas relações foi publicado na forma de revisão sistemática que avaliou o impacto da obesidade sobre a saúde reprodutiva e a gravidez, incluindo eficácia de tecnologias reprodutivas assistidas e complicações obstétricas. Essa revisão seguiu diretrizes rigorosas (como o protocolo PRISMA) para agregar evidências de múltiplos estudos clínicos e observacionais, destacando alterações hormonais, sinalização metabólica, e efeitos epigenéticos associados ao excesso de peso corporal durante o período reprodutivo.
Neste texto, revisamos os principais mecanismos, achados clínicos e implicações práticas para médicos e pesquisadores, com foco em como a obesidade modifica o cenário da fertilidade e da gestação.
Barbouni K, Jotautis V, Metallinou D, et al. When Weight Matters: How Obesity Impacts Reproductive Health and Pregnancy — A Systematic Review. Curr Obes Rep. 2025. PMCID: PMC12003489.
Artigo referêcia: When Weight Matters: How Obesity Impacts Reproductive Health and Pregnancy-A Systematic Review – PMC
1. Obesidade Feminina e Fertilidade: Efeitos Hormonais e Metabólicos
A obesidade na mulher está associada a uma série de alterações endócrinas que prejudicam tanto a ovulação quanto a qualidade oocitária.
1.1. Alterações Hormonais Centrais e Periféricas
Pacientes com obesidade frequentemente apresentam:
- Redução de SHBG (Sex Hormone Binding Globulin) — levando a maiores níveis de hormônios sexuais livres no sangue.
- Disruptura no eixo hipotálamo–hipófise–ovariano — resultando em ovulação irregular e síndrome dos ovários policísticos (SOP)
- Desequilíbrio nas adipocinas (como leptina e adiponectina) — que modulam receptores hormonais no ovário e no endométrio.
1.2. Metabolismo e Função Ovariana
A obesidade está correlacionada com resistência à insulina, que pode:
- Diminuir a qualidade oocitária.
- Aumentar o risco de anovulação.
- Reduzir a receptividade endometrial.
Estudos clínicos demonstraram que mulheres com obesidade apresentam menores taxas de gestação espontânea e maiores tempos até gravidez.
2. Obesidade Masculina e Fertilidade: Evidências Recentes
A obesidade não afeta apenas a fertilidade feminina; ela também exerce efeitos negativos significativos na fertilidade masculina.
2.1. Implicações Endócrinas
Homens com obesidade frequentemente exibem:
- Hipogonadismo funcional — com níveis reduzidos de testosterona total e livre.
- Aumento na conversão periférica de testosterona em estradiol — devido à aromatização em tecido adiposo.
2.2. Parâmetros Seminais Comprometidos
Alterações no sêmen frequentemente associadas à obesidade incluem:
- Redução da contagem espermática.
- Menor motilidade espermática.
- Aumento da fragmentação do DNA espermático.
Essas alterações podem estar mediadas por estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e alterações hormonais, interferindo diretamente na capacidade fertilizadora dos espermatozoides.
3. Obesidade e Tecnologias Reprodutivas Assistidas (ART)
A obesidade não só compromete a fertilidade natural, como também afeta os resultados de intervenções de reprodução assistida.
3.1. Menores Taxas de Sucesso em ART
Mulheres com obesidade que se submetem a fertilização in vitro (FIV) ou ICSI frequentemente:
- Requerem maiores doses de gonadotrofinas.
- Têm menor número de oócitos recuperados.
- Apresentam menores taxas de implantação e gravidez clínica.
3.2. Mecanismos Possíveis
Dentre vários mecanismos propostos, destacam-se:
- Alterações no microambiente folicular.
- Sinalização metabólica alterada.
- Resposta reduzida à estimulação ovariana.
Esses achados reforçam a necessidade de considerar o manejo de peso corporal antes de intervenções de fertilidade como parte do planejamento clínico.
4. Obesidade Gestacional: Impactos Maternos e Neonatais
Durante a gravidez, a obesidade materna está associada a desfechos adversos tanto para a mãe quanto para o bebê.
4.1. Complicações Gestacionais
As mulheres com obesidade apresentam maior risco de:
- Diabetes gestacional.
- Preeclâmpsia.
- Parto cesáreo.
- Macrosomia fetal.
Essas complicações são mediadas por fatores como resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau e alterações vasculares.
4.2. Riscos Neonatais e Intergeracionais
Neonatos de mães com obesidade tendem a apresentar:
- Maior incidência de admissão em UTI neonatal.
- Risco aumentado de obesidade infantil e síndrome metabólica ao longo da vida.
Além disso, evidências emergentes apontam que marcadores epigenéticos associados ao ambiente uterino em mães obesas podem modular o risco de doenças crônicas nos filhos, destacando um aspecto intergeracional da doença.

5. Mecanismos Biológicos Subjacentes: Do Metabolismo à Epigenética
A obesidade influencia a saúde reprodutiva por meio de diversos mecanismos biológicos.
5.1. Inflamação Crônica de Baixo Grau
O tecido adiposo visceral libera citocinas pró-inflamatórias que alteram a função reprodutiva ao:
- Interferirem no eixo endócrino.
- Promoverem resistência à insulina.
- Comprometerem a homeostase hormonal.
5.2. Epigenética
Modificações epigenéticas em células germinativas e no ambiente uterino podem explicar:
- A transferência de riscos metabólicos às futuras gerações.
- Alterações na expressão gênica relacionada ao crescimento fetal.
Esse campo emergente está sendo cada vez mais estudado como uma ponte entre fatores ambientais e saúde reprodutiva a longo prazo.
Conclusões: Impacto da Obesidade na Fertilidade
A obesidade representa um fator de risco multifacetado para a saúde reprodutiva em homens e mulheres. Dos mecanismos endócrinos às complicações gestacionais, a evidencia indica que:
- A gestão do peso corporal é um aspecto crítico no cuidado pré-concepção.
- Mudanças no estilo de vida e intervenções metabólicas devem ser integradas à prática clínica.
- Pesquisas adicionais são necessárias para entender completamente as bases epigenéticas dos efeitos da obesidade na reprodução humana.
Se você é médico e quer saber mais sobre Nutrologia Feminina, conheça a nossa Pós Graduação em Nutrologia Feminina! Acesse: Pós Nutrologia Feminina – Nutrology Academy
