Os agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1 receptor agonists – GLP-1 RAs) tornaram-se uma das classes farmacológicas mais relevantes da última década no manejo do diabetes mellitus tipo 2 e, mais recentemente, da obesidade. A ampla divulgação na mídia como “injeções para emagrecimento” impulsionou a procura por esses medicamentos, muitas vezes fora das indicações médicas formais, o que elevou a preocupação das agências regulatórias quanto ao uso seguro.
Em junho de 2025, a Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA) do Reino Unido publicou o guia oficial “GLP-1 medicines for weight loss and diabetes: what you need to know”, reforçando orientações para prescrição, monitoramento e farmacovigilância desses fármacos. O documento destaca a necessidade de comunicação clara entre médicos e pacientes sobre benefícios, riscos e limites do tratamento, além de alertas específicos sobre saúde mental, gravidez, cirurgia e uso indevido.
Artigo de referência: GLP-1 medicines for weight loss and diabetes: what you need to know – GOV.UK
O que são os agonistas do receptor GLP-1?
Os GLP-1 RAs são medicamentos que mimetizam a ação do hormônio GLP-1, um peptídeo intestinal liberado fisiologicamente após a ingestão alimentar. Esse hormônio atua em múltiplos níveis do metabolismo energético, incluindo:
- Estímulo à secreção de insulina dependente de glicose
- Redução da secreção de glucagon
- Retardo do esvaziamento gástrico
- Atuação no sistema nervoso central promovendo saciedade
Como consequência, os GLP-1 RAs contribuem tanto para o controle glicêmico quanto para a redução da ingestão calórica, o que explica sua utilidade no diabetes tipo 2 e na obesidade.
Alguns fármacos mais recentes, como a tirzepatida (Mounjaro), também ativam o receptor de GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose), configurando um agonista duplo (GIP/GLP-1), com maior potência metabólica.
Quais medicamentos GLP-1 estão aprovados no Reino Unido?
De acordo com a MHRA, três princípios ativos dessa classe estão licenciados no Reino Unido:
| Medicamento | Diabetes tipo 2 (Associado a dieta e exercício) | Licenciado Para Perda de peso em obesidade (Associado a dieta e exercício) |
|---|---|---|
| Semaglutida (Wegovy) | Sim | Sim |
| Semaglutida (Ozempic, Rybelsus) | Sim | Não |
| Tirzepatida (Mounjaro) | Sim | Sim |
| Liraglutida | Depende da marca | Depende da marca |
Um ponto relevante é que a semaglutida na formulação Wegovy também recebeu aprovação para redução do risco de eventos cardiovasculares em indivíduos com sobrepeso ou obesidade.
A diferenciação entre marcas e indicações é fundamental, pois nem todo medicamento da classe GLP-1 está licenciado para emagrecimento, apesar da semelhança farmacológica.
GLP-1 e perda de peso: quem realmente pode usar?
Os GLP-1 RAs não devem ser utilizados por pessoas sem sobrepeso ou obesidade clinicamente diagnosticada. O uso para fins puramente estéticos ou por automedicação representa um risco significativo à saúde.
Além disso, o uso fora da indicação aprovada ainda não foi totalmente avaliado pelas agências regulatórias, incluindo a MHRA, o que reforça a necessidade de cautela.
Onde e como obter medicamentos GLP-1 com segurança
Todos os medicamentos GLP-1 são de prescrição obrigatória. Isso significa que o paciente deve ser avaliado por um profissional de saúde habilitado, que irá:
- Confirmar a indicação clínica
- Excluir contraindicações
- Monitorar efeitos adversos
O guia da MHRA alerta explicitamente para os riscos de comprar esses medicamentos por:
- Redes sociais
- Salões de beleza
- Sites não regulamentados
Há relatos de efeitos colaterais graves associados a produtos falsificados. Os medicamentos legítimos vêm exclusivamente em canetas injetoras pré-cheias. Produtos vendidos como pó para reconstituição não são autorizados.
Efeitos colaterais dos agonistas de GLP-1
Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, incluindo:
- Náuseas
- Vômitos
- Diarreia
Na maioria dos casos, são leves e transitórios, especialmente durante a fase de titulação da dose. No entanto, em situações mais graves, esses sintomas podem levar à desidratação e hospitalização.
Um evento raro, porém potencialmente grave, é a pancreatite aguda, que se manifesta principalmente como dor abdominal intensa e persistente.
Uso de GLP-1 na gravidez e lactação
Os GLP-1 RAs não devem ser utilizados durante a gravidez ou amamentação, devido à ausência de dados robustos de segurança nesses períodos.
A MHRA recomenda os seguintes intervalos antes de tentar engravidar:
| Medicamento | Intervalo mínimo |
|---|---|
| Semaglutida (Wegovy, Ozempic, Rybelsus) | 2 meses |
| Tirzepatida (Mounjaro) | 1 mês |
| Liraglutida | Pode ser interrompida imediatamente |
O uso de contracepção eficaz é recomendado durante o tratamento.
Interação com contraceptivos orais
Mulheres em uso de tirzepatida (Mounjaro) devem adotar um método contraceptivo adicional (como DIU, implante ou preservativo) nas primeiras quatro semanas de tratamento e após qualquer aumento de dose. Isso ocorre porque o medicamento pode reduzir a absorção dos anticoncepcionais orais, diminuindo sua eficácia.
GLP-1 e cirurgia: o que o médico precisa saber
Antes de qualquer procedimento cirúrgico com anestesia geral, é essencial informar o uso de GLP-1 RAs. Esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico, aumentando o risco de aspiração pulmonar durante a anestesia.
GLP-1 e saúde mental
Após revisão abrangente dos dados disponíveis, a MHRA concluiu que não há evidência de associação causal entre os agonistas de GLP-1 e ideação suicida ou depressão. Ainda assim, o monitoramento contínuo segue sendo realizado.
Orientações finais para uso seguro
- Utilize apenas com indicação médica formal
- Nunca compre de fontes não regulamentadas
- Relate efeitos adversos aos sistemas de farmacovigilância
- Não reutilize canetas injetoras
- Tenha expectativas realistas: GLP-1 não é solução milagrosa para emagrecimento
Conclusão
Os agonistas do receptor GLP-1 representam um dos maiores avanços no tratamento moderno do diabetes tipo 2 e da obesidade. Entretanto, seu uso deve ser rigorosamente orientado por profissionais de saúde, respeitando as indicações, contraindicações e alertas regulatórios. O uso indevido não apenas compromete a eficácia, como também expõe o paciente a riscos clínicos evitáveis.
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