A compulsão alimentar é uma característica central de dois importantes transtornos alimentares: o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) e a bulimia nervosa (BN). Ambos compartilham episódios recorrentes de ingestão excessiva de alimentos, acompanhados por uma sensação de perda de controle, e estão associados a impactos significativos na saúde física e mental. Diante das limitações dos tratamentos atuais, cresce o interesse em alternativas farmacológicas seguras e eficazes, e os agonistas do receptor de GLP-1 surgem como uma nova fronteira terapêutica.
Artigo: The emerging role of glucagon-like peptide-1 in binge eating – PMC
O que é o GLP-1 e qual sua função fisiológica?
O peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) é um hormônio incretínico produzido principalmente nas células L do intestino delgado e também no tronco encefálico. O GLP-1 exerce efeitos múltiplos no controle do metabolismo energético: estimula a secreção de insulina, inibe a secreção de glucagon, retarda o esvaziamento gástrico e promove saciedade.
Nos últimos anos, agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1R), como liraglutida, semaglutida e dulaglutida, passaram a ser amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade devido à sua eficácia na redução de peso e controle glicêmico. No entanto, evidências recentes apontam para um potencial papel desses fármacos na modulação do comportamento alimentar, particularmente no contexto da compulsão alimentar.
Compulsão alimentar: definição e desafios no tratamento
Segundo o DSM-5, a compulsão alimentar é definida por episódios nos quais o indivíduo consome, em curto intervalo de tempo, uma quantidade de alimentos significativamente maior do que a maioria das pessoas consumiria em circunstâncias semelhantes, acompanhada de uma sensação de perda de controle.
Enquanto o TCAP é caracterizado por episódios de compulsão sem comportamentos compensatórios (como vômitos ou uso de laxantes), a BN inclui tais comportamentos. Apesar da existência de tratamentos baseados em psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental, a psicoterapia interpessoal e programas de perda de peso comportamental, as taxas de acesso ao tratamento permanecem baixas. Apenas cerca de 20% das pessoas com transtornos alimentares recebem algum tipo de cuidado, o que reforça a necessidade de novas abordagens terapêuticas.
Terapias farmacológicas atuais e suas limitações
Atualmente, o lisdexanfetamina é o único fármaco aprovado pela FDA para o tratamento do TCAP, enquanto a fluoxetina é aprovada para BN. Ambos apresentam eficácia, mas estão associados a efeitos colaterais frequentes. Topiramato também tem sido utilizado off-label, com bons resultados em redução de compulsão, porém seu uso é limitado pelos efeitos adversos e interações medicamentosas.
Essa lacuna terapêutica impulsiona a investigação de outras alternativas farmacológicas, como os agonistas de GLP-1R, que vêm ganhando atenção por seus efeitos metabólicos e comportamentais.
GLP-1, saciedade e controle do apetite
O GLP-1R é expresso em diversas regiões cerebrais envolvidas na regulação do apetite e do sistema de recompensa, como o núcleo do trato solitário (NTS), a área tegmental ventral e o núcleo accumbens. A ativação do GLP-1R nessas áreas modula a motivação por alimentos altamente palatáveis e reduz o desejo de comer, especialmente alimentos ricos em gordura e açúcar.
Estudos em humanos demonstram que a administração de agonistas de GLP-1 está associada à redução da fome, aumento da saciedade e menor ingestão calórica, aspectos diretamente ligados à redução de episódios de compulsão alimentar.
Níveis de GLP-1 em pacientes com compulsão alimentar
A literatura clínica sobre os níveis endógenos de GLP-1 em indivíduos com TCAP e BN ainda é inconclusiva. Em alguns estudos, pacientes com TCAP apresentam níveis basais elevados de GLP-1 comparados a indivíduos sem o transtorno. Já em outras amostras, não foram observadas diferenças significativas nos níveis de GLP-1, mesmo após estímulo alimentar.
No caso da BN, alguns estudos apontam para níveis reduzidos de GLP-1 em jejum e no pós-prandial, o que poderia contribuir para a menor saciedade e aumento da ingestão alimentar. Embora os dados sejam heterogêneos, tais achados sugerem que distúrbios no eixo GLP-1 podem estar associados ao comportamento de compulsão alimentar e que a modulação desse sistema pode trazer benefícios terapêuticos.
Agonistas de GLP-1 no tratamento da compulsão alimentar em humanos
As evidências clínicas sobre o uso de agonistas de GLP-1R em transtornos alimentares ainda são incipientes, mas promissoras. Liraglutida é o fármaco mais estudado até o momento, com resultados encorajadores:
- Um ensaio clínico randomizado e controlado (RCT) com 27 adultos com sobrepeso ou obesidade e TCAP demonstrou redução nos episódios de compulsão alimentar em ambos os grupos (liraglutida e placebo), com tendência a maior redução no grupo liraglutida, embora sem significância estatística devido ao tamanho amostral reduzido.
- Estudos abertos mostraram que liraglutida, quando associada a intervenções comportamentais, promove melhora dos sintomas de compulsão e perda ponderal significativa.
- Outra pesquisa com pacientes com obesidade e comportamento subclínico de compulsão alimentar demonstrou redução dos escores na Binge Eating Scale com liraglutida, além de melhora em marcadores metabólicos.
- Um estudo com dulaglutida evidenciou redução mais expressiva nos episódios de compulsão e parâmetros antropométricos em comparação com um antidiabético convencional (gliclazida).
- Semaglutida demonstrou, em análise retrospectiva, ser mais eficaz que lisdexanfetamina e topiramato na redução dos escores de compulsão alimentar.
Embora esses resultados sejam promissores, a maioria dos estudos ainda é de caráter exploratório e com limitações metodológicas, como ausência de randomização, amostras pequenas e avaliação por autorrelato. Futuros ensaios clínicos randomizados, com amostras maiores e avaliação diagnóstica estruturada, são fundamentais para consolidar a evidência.
Considerações sobre sexo e hormônios sexuais
Transtornos alimentares com padrão de compulsão alimentar são mais prevalentes em mulheres, o que levanta a hipótese de influência hormonal no comportamento alimentar. Evidências preliminares sugerem que os estrogênios podem modular a resposta ao GLP-1, potencializando seus efeitos anorexígenos. Estudos sobre terapias combinadas de GLP-1 e estrogênio são uma possível via terapêutica a ser explorada no futuro.
Conclusão
A modulação do sistema GLP-1 representa uma promissora estratégia farmacológica para o tratamento da compulsão alimentar, especialmente em indivíduos com obesidade ou com dificuldade de adesão à psicoterapia. Embora ainda sejam necessárias mais evidências clínicas robustas, os achados iniciais sustentam o uso de agonistas de GLP-1 como alternativa viável, segura e possivelmente eficaz no manejo do TCAP e da BN.
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