Durante muito tempo, o estômago foi considerado um ambiente praticamente estéril devido à sua elevada acidez. Entretanto, avanços nas técnicas de sequenciamento molecular demonstraram que esse órgão abriga uma comunidade microbiana diversificada, cuja composição pode ser influenciada pela alimentação, pelo uso de medicamentos, pela presença de Helicobacter pylori e pelas características fisiológicas do próprio indivíduo. Essa descoberta amplia a compreensão sobre as interações entre o trato gastrointestinal, a inflamação e o metabolismo energético.
Uma revisão publicada na revista npj Biofilms and Microbiomes por Amoyel et al. (2026) analisa o conhecimento atual sobre o microbioma gástrico, sua relação com a obesidade e as possíveis alterações decorrentes de intervenções bariátricas. O trabalho destaca evidências de diferenças na composição microbiana do estômago de pessoas com obesidade, mas também ressalta lacunas importantes, especialmente a ausência de estudos em humanos que caracterizem o microbioma gástrico após procedimentos bariátricos (AMOYEL et al., 2026).
Para médicos que atuam em Nutrologia, endocrinologia e tratamento da obesidade, esse campo de investigação oferece uma perspectiva adicional sobre a complexidade da doença metabólica. Embora os achados ainda não permitam estabelecer relações causais definitivas ou orientar tratamentos baseados na modulação do microbioma gástrico, compreender essas interações pode contribuir para uma avaliação mais abrangente da fisiologia digestiva e das respostas às intervenções para perda de peso.
Artigo referência: The gastric ecosystem: assessing resident microbiome vs. transient microorganisms in obesity and following bariatric interventions – PubMed
O que é o microbioma gástrico e qual é sua função?
O microbioma gástrico corresponde ao conjunto de microrganismos e de seus componentes genéticos presentes no ambiente do estômago. Diferentemente do intestino grosso, que apresenta elevada densidade microbiana, o estômago é um ambiente de baixa biomassa bacteriana, marcado pela acidez, pela atividade enzimática, pela produção de muco e pela motilidade gastrointestinal.
Estudos moleculares identificaram diferentes grupos bacterianos nesse ambiente, incluindo os filos Bacillota, Pseudomonadota, Actinomycetota, Bacteroidota e Fusobacteriota. Entre os gêneros frequentemente encontrados estão Streptococcus, Prevotella, Rothia e Veillonella.
A presença dessas bactérias, contudo, exige interpretação cuidadosa. A detecção de DNA microbiano não comprova que os microrganismos estejam vivos, metabolicamente ativos ou estabelecidos de forma permanente na mucosa gástrica. Parte dos microrganismos identificados pode ter origem na cavidade oral, nos alimentos ou no refluxo de conteúdo intestinal.
Como o microbioma gástrico pode influenciar o metabolismo?
O estômago participa de processos que vão além da digestão dos alimentos. Ele integra mecanismos de percepção de nutrientes, controle do esvaziamento gástrico e sinalização hormonal relacionados ao apetite e à homeostase da glicose.
Entre os hormônios relevantes nesse contexto estão a grelina, associada à regulação da fome, e o peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), envolvido na regulação metabólica. As interações entre microrganismos, mucosa gástrica e fisiologia hormonal constituem uma área de pesquisa emergente.
Entretanto, ainda não está estabelecido até que ponto as alterações microbianas do estômago contribuem diretamente para a disfunção metabólica. É necessário distinguir associações observadas em estudos experimentais e clínicos de mecanismos causais comprovados em seres humanos.
Qual é a relação entre microbioma gástrico e obesidade?
A obesidade está associada a alterações fisiológicas que podem modificar o ambiente do estômago. Entre elas, a revisão destaca mudanças no pH gástrico, no esvaziamento e na frequência do refluxo duodenogástrico de bile. Essas modificações podem alterar as condições de sobrevivência e distribuição dos microrganismos.
Além disso, padrões alimentares, inflamação de baixo grau e mudanças na integridade da mucosa podem contribuir para a remodelação desse ecossistema. A hipótese investigada é que essas alterações não sejam apenas consequências da obesidade, mas que possam participar de interações biológicas relevantes para a saúde metabólica.
O que mostram os estudos em humanos?
Um estudo comparativo de Gazi et al. (2024), discutido na revisão, avaliou amostras de tecido gástrico de 19 pessoas com obesidade submetidas à cirurgia bariátrica e de 18 indivíduos com peso normal e dispepsia funcional.
Os pesquisadores não observaram diferenças significativas na diversidade microbiana global entre os grupos. Entretanto, identificaram diferenças na composição das comunidades bacterianas, incluindo uma maior razão entre Bacillota e Bacteroidota no grupo com obesidade, além de diferenças na abundância relativa de determinados táxons.
Outro estudo, de Martínez-Montoro et al. (2025), encontrou menor riqueza microbiana e perfis taxonômicos distintos em adultos com obesidade, mesmo na ausência de infecção por H. pylori. Os resultados também apontaram diferenças em assinaturas funcionais previstas relacionadas ao metabolismo lipídico, ao estresse oxidativo e à inflamação.
Esses achados sugerem que a obesidade pode estar associada a uma configuração particular do microbioma gástrico. No entanto, os estudos disponíveis não permitem determinar se essas diferenças contribuem para o desenvolvimento da doença, resultam das alterações fisiológicas associadas ao excesso de adiposidade ou refletem uma combinação desses fatores.
O que os modelos animais acrescentam à investigação?
Estudos experimentais fornecem pistas sobre possíveis mecanismos. Em modelos murinos, dietas ricas em gordura foram associadas a mudanças na composição do microbioma gástrico, incluindo redução da diversidade bacteriana e alterações na abundância de determinados grupos.
Um dos estudos discutidos na revisão identificou alterações microbianas após 12 semanas de dieta rica em gordura, concomitantes ao desenvolvimento de alterações metabólicas, como resistência à insulina e dislipidemia. Outros experimentos sugeriram que mudanças no ambiente gástrico e na sinalização da leptina poderiam participar de processos inflamatórios e de remodelação da mucosa.
Apesar do interesse desses resultados, sua extrapolação para humanos exige cautela. Particularidades fisiológicas dos roedores, incluindo a coprofagia, podem favorecer a circulação de microrganismos entre diferentes segmentos do trato gastrointestinal e dificultar a identificação de efeitos específicos do estômago.
Helicobacter pylori e inibidores da bomba de prótons: fatores que modificam o ecossistema gástrico
A composição do microbioma gástrico também é influenciada por fatores clínicos que precisam ser considerados na interpretação dos estudos.
A infecção por Helicobacter pylori pode provocar inflamação crônica, remodelação epitelial e, em determinados contextos, atrofia glandular. Essas alterações podem reduzir a secreção ácida e elevar o pH gástrico, criando condições para a persistência de microrganismos menos adaptados à acidez.
Os inibidores da bomba de prótons (IBPs), por sua vez, reduzem a secreção de ácido clorídrico e podem favorecer o aumento da carga bacteriana e a aproximação do perfil microbiano gástrico ao encontrado na cavidade oral.
Para a prática clínica e a pesquisa, a implicação é direta: a presença de H. pylori e o uso de IBPs devem ser considerados na interpretação de diferenças microbianas entre pacientes. Entretanto, as associações descritas entre esses fatores, o microbioma e os desfechos metabólicos não demonstram, isoladamente, que as alterações gástricas sejam responsáveis pelas diferenças observadas.

Cirurgia bariátrica e microbioma gástrico: o que já sabemos?
A cirurgia bariátrica modifica profundamente a anatomia e a fisiologia gastrointestinal. Essas intervenções podem alterar o volume gástrico, a motilidade, a exposição ao ácido, o fluxo de nutrientes e a sinalização hormonal. Tais mudanças tornam plausível a hipótese de remodelação do microbioma gástrico.
Gastrectomia vertical
Na gastrectomia vertical, também chamada sleeve gastrectomy, aproximadamente 70% a 80% do estômago são removidos ao longo da grande curvatura. O procedimento reduz a capacidade gástrica e modifica a fisiologia digestiva, incluindo a secreção de grelina.
Em modelos animais, foram observadas alterações na composição do microbioma após a cirurgia, como aumento relativo de Streptococcus e redução de Lactobacillus e Romboutsia. Essas mudanças ocorreram em paralelo a melhorias em parâmetros metabólicos.
Entretanto, a revisão ressalta uma limitação fundamental: até sua publicação, não havia estudos em humanos que caracterizassem diretamente as mudanças do microbioma gástrico após a gastrectomia vertical.
Bypass gástrico em Y de Roux e gastroplastia endoscópica
O bypass gástrico em Y de Roux modifica o trajeto dos nutrientes e a exposição de diferentes segmentos gastrointestinais ao conteúdo alimentar e biliar. Embora existam pesquisas sobre alterações do microbioma intestinal após o procedimento, a resposta específica da comunidade microbiana gástrica permanece pouco caracterizada.
A gastroplastia endoscópica, por sua vez, reduz o volume do estômago por meio de suturas realizadas por via endoscópica, sem ressecção gástrica. Apesar das mudanças fisiológicas decorrentes do procedimento, a revisão também não identificou estudos que avaliassem diretamente seus efeitos sobre o microbioma gástrico.
Portanto, não é possível afirmar que as alterações microbianas observadas em animais ocorram da mesma maneira em pacientes submetidos a essas intervenções. Estudos longitudinais em humanos serão necessários para estabelecer a magnitude, a duração e a relevância metabólica dessas mudanças.
Medicamentos antiobesidade e GLP-1: uma nova fronteira de pesquisa
Os agonistas do receptor de GLP-1 e outros medicamentos utilizados no tratamento da obesidade podem modificar aspectos da fisiologia gastrointestinal, incluindo o esvaziamento gástrico e a motilidade. Como esses fatores influenciam o ambiente microbiano, é plausível investigar se os tratamentos farmacológicos também modificam o microbioma gástrico.
A revisão, contudo, destaca que esse efeito ainda não foi adequadamente caracterizado. Embora estudos sobre microbioma intestinal e agonistas de GLP-1 estejam disponíveis, não se deve assumir que seus resultados sejam diretamente aplicáveis ao ambiente gástrico.
Para a prática médica, isso significa que o microbioma gástrico ainda não pode ser utilizado como marcador validado para selecionar medicamentos antiobesidade, prever a resposta terapêutica ou orientar intervenções específicas.
Quais são as limitações das evidências atuais?
Três limitações merecem atenção especial.
A primeira é metodológica. Como o estômago apresenta baixa biomassa microbiana, a contaminação durante a coleta e o processamento das amostras pode influenciar os resultados. Além disso, o sequenciamento do gene 16S rRNA apresenta limitações para identificar microrganismos em nível de espécie e não fornece, por si só, informações sobre suas funções metabólicas.
A segunda é a dificuldade de diferenciar microrganismos residentes daqueles que chegam temporariamente pela saliva, pelos alimentos ou pelo refluxo intestinal. Técnicas complementares, como metagenômica shotgun, análise de RNA microbiano e métodos de cultivo, podem ajudar a esclarecer essas questões.
A terceira é a escassez de estudos longitudinais em humanos, especialmente após intervenções bariátricas e farmacológicas. Sem avaliações realizadas antes e depois do tratamento, torna-se difícil estabelecer a direção das associações e sua relevância clínica.
Conclusão
O microbioma gástrico representa uma área promissora para compreender melhor as interações entre obesidade, fisiologia digestiva, inflamação e sinalização metabólica. As evidências disponíveis apontam diferenças na composição microbiana do estômago de pessoas com obesidade e sugerem que intervenções bariátricas podem modificar esse ecossistema.
Entretanto, a causalidade permanece incerta, e faltam estudos em humanos que caracterizem as mudanças após procedimentos cirúrgicos, endoscópicos e farmacológicos. No momento, esses achados devem ser interpretados como evidências emergentes, e não como fundamento para protocolos clínicos de modulação do microbioma gástrico.
Para o médico, acompanhar essa evolução científica exige integrar conhecimentos de fisiologia, metabolismo, microbiologia e tratamento da obesidade, reconhecendo tanto as possibilidades quanto as limitações das evidências. A atualização contínua e a educação médica em Nutrologia são fundamentais para transformar novos conhecimentos em decisões clínicas criteriosas, individualizadas e sustentadas por evidências.
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