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MASLD e saúde da mulher: o que médicos precisam saber sobre SOP, menopausa e gestação

A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD, do inglês metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease) é uma condição frequente, associada à obesidade, à resistência à insulina, à síndrome metabólica e ao diabetes mellitus tipo 2. Embora muitas vezes seja identificada incidentalmente em exames de imagem, sua evolução pode incluir inflamação hepática, fibrose avançada, cirrose e carcinoma hepatocelular. Para o médico, compreender os fatores que favorecem essa progressão é essencial para reconhecer pacientes de maior risco e planejar o acompanhamento clínico.

Em uma revisão publicada em 2025 na revista Women’s Health, Jancova, Ismail e Vistejnova discutem a relação entre MASLD e saúde feminina, com destaque para a síndrome dos ovários policísticos (SOP), a gestação, a menopausa e a influência dos hormônios sexuais (JANCOVA; ISMAIL; VISTEJNOVA, 2025). O trabalho reúne evidências sobre como essas condições se relacionam à prevalência e à gravidade da doença hepática, além de abordar possibilidades de prevenção e manejo.

Essa perspectiva amplia a avaliação metabólica da mulher para além do peso corporal e dos exames glicêmicos. Na prática clínica, reconhecer os períodos da vida e as condições hormonais associados ao risco hepático pode contribuir para uma abordagem mais integrada entre Nutrologia, Endocrinologia, Ginecologia e Hepatologia.

Artigo referência: Relationship between MASLD and women’s health: A review – PubMed

O que é MASLD e por que ela merece atenção clínica?

A MASLD corresponde ao acúmulo de gordura no fígado associado a fatores de risco cardiometabólicos. O termo substituiu a nomenclatura anterior, doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD), em uma atualização conceitual anunciada em 2023.

A doença compreende diferentes estágios. A esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASL) caracteriza-se pelo acúmulo de gordura, enquanto a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH) envolve lesão dos hepatócitos e inflamação, podendo coexistir com diferentes graus de fibrose.

A presença de gordura no fígado, isoladamente, não determina o prognóstico. O estágio de fibrose é um dos principais marcadores prognósticos, pois sua progressão está relacionada ao aumento do risco de cirrose, carcinoma hepatocelular e mortalidade.

Segundo a revisão, uma meta-análise citada pelos autores estimou prevalência global de MASLD próxima de 30%. A condição também apresenta forte associação com diabetes tipo 2, obesidade e síndrome metabólica, reforçando sua importância na avaliação do risco cardiometabólico.

Qual é a relação entre MASLD e síndrome dos ovários policísticos?

A SOP é uma condição endócrino-metabólica que pode aumentar o risco de esteatose hepática mesmo em mulheres sem obesidade. Esse aspecto é particularmente relevante porque a avaliação baseada exclusivamente no índice de massa corporal (IMC) pode deixar de identificar pacientes que necessitam de investigação adicional.

Por que a SOP aumenta o risco de esteatose hepática?

A revisão apresenta evidências de que mulheres com SOP têm risco aproximadamente 2 a 2,5 vezes maior de desenvolver MASLD em comparação com controles de idade e IMC semelhantes.

Essa associação envolve mecanismos metabólicos interligados. A resistência à insulina e a hiperinsulinemia podem favorecer alterações no metabolismo lipídico, enquanto o excesso de andrógenos pode contribuir para a disfunção metabólica e para mudanças na distribuição e no funcionamento do tecido adiposo.

A redução da adiponectina, hormônio produzido pelo tecido adiposo com efeitos metabólicos e anti-inflamatórios, também pode participar desse processo. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que algumas mulheres com SOP apresentam esteatose hepática mesmo quando não têm excesso de peso.

Além disso, estudos discutidos na revisão associam a coexistência de SOP e MASLD a maior frequência de esteatose grave, fibrose avançada e cirrose. Entretanto, a magnitude dessas associações varia entre estudos e populações.

O que muda na avaliação clínica da paciente com SOP?

A SOP deve motivar atenção aos fatores de risco metabólicos e à possibilidade de doença hepática concomitante. A avaliação pode incluir histórico clínico, pressão arterial, perfil lipídico, glicemia, hemoglobina glicada quando indicada e enzimas hepáticas, conforme o contexto clínico.

A investigação de MASLD e do risco de fibrose deve considerar o conjunto dos achados, e não apenas o IMC ou a presença de sintomas. A revisão também destaca que a relação entre MASLD, SOP e fertilidade ainda exige estudos adicionais para esclarecer mecanismos causais.

MASLD na gestação: quais são os riscos maternos e fetais?

A presença de MASLD durante a gravidez merece atenção porque está associada a maior ocorrência de complicações obstétricas. É importante distinguir essa condição da esteatose hepática aguda da gestação, uma doença rara e grave com características próprias.

Em uma meta-análise de 22 estudos citada pelos autores, a MASLD esteve associada a um risco mais de três vezes maior de diabetes mellitus gestacional e pré-eclâmpsia. Também foram descritos aumentos no risco de parto prematuro e de recém-nascidos grandes para a idade gestacional.

A relação entre saúde metabólica materna e fetal pode se estender além do parto. Obesidade materna, hiperglicemia e alterações metabólicas durante a gestação foram associadas a maior suscetibilidade dos filhos à esteatose hepática e a alterações metabólicas ao longo da vida. Esses achados, contudo, não significam que a doença necessariamente se desenvolverá na criança.

Como incorporar esses achados ao cuidado pré-natal?

O aconselhamento pré-concepcional é uma oportunidade para identificar e manejar fatores de risco modificáveis. Quando existe excesso de peso, intervenções individualizadas sobre alimentação e atividade física podem contribuir para melhorar a saúde metabólica antes da gestação.

Durante a gravidez, a avaliação deve integrar o risco hepático ao acompanhamento obstétrico, com atenção à glicemia, à pressão arterial e às demais condições clínicas relevantes. A estratégia de investigação e o tratamento devem ser adaptados à gestação, evitando intervenções para perda de peso que não sejam apropriadas nesse período.

A revisão também descreve associações entre amamentação por seis meses ou mais e menor prevalência de MASLD materna e na prole em determinados estudos. Embora esses resultados sejam promissores, a evidência não é uniforme e não permite considerar a amamentação uma garantia de prevenção da doença.

Menopausa e MASLD: qual é o papel dos hormônios sexuais?

A transição menopausal representa outro período importante para a saúde metabólica feminina. Antes da menopausa, a prevalência de MASLD tende a ser menor nas mulheres do que nos homens. Essa diferença diminui por volta dos 50 anos, e a prevalência feminina pode superar a masculina após os 60 anos.

A revisão cita uma meta-análise que encontrou risco 2,4 vezes maior de desenvolvimento de MASLD após a menopausa. A queda dos estrogênios pode contribuir para mudanças no metabolismo lipídico, na sensibilidade à insulina e na distribuição da gordura corporal, favorecendo o acúmulo de gordura visceral.

Esses mecanismos são biologicamente plausíveis, mas não explicam isoladamente todos os casos. Idade, genética, alimentação, sedentarismo e comorbidades cardiometabólicas também influenciam o risco e a progressão da doença.

MASLD e saúde da mulher: fatores metabólicos e hormonais associados à esteatose hepática na SOP, na menopausa e na gestação.
MASLD e saúde da mulher: fatores metabólicos e hormonais estão associados à esteatose hepática

Terapia hormonal na menopausa: o que as evidências mostram?

O efeito da terapia hormonal da menopausa sobre a MASLD permanece incerto. Estudos observacionais apresentam resultados conflitantes, possivelmente relacionados a diferenças entre formulações, vias de administração, duração do tratamento e características das pacientes.

A revisão descreve resultados que sugerem um perfil potencialmente mais favorável para o estrogênio transdérmico em comparação com a administração oral, incluindo diferenças observadas na prevalência de esteatose e nos triglicerídeos. Também discute o uso de progesterona micronizada ou didrogesterona quando há indicação de progestagênio.

Esses achados não justificam iniciar terapia hormonal com o objetivo de tratar MASLD. A indicação deve continuar baseada nos objetivos clínicos reconhecidos para a terapia hormonal, na avaliação individual de riscos e benefícios e nas contraindicações. Quando houver indicação de terapia hormonal em uma mulher com MASLD, a escolha da formulação e da via de administração deve ser discutida individualmente.

Como manejar a MASLD na prática clínica?

A abordagem da MASLD deve combinar avaliação do risco de progressão, manejo das comorbidades e intervenções sustentáveis sobre o estilo de vida.

Alimentação, atividade física e perda de peso

A revisão destaca a importância da redução da ingestão calórica quando indicada, da qualidade da alimentação e da prática regular de atividade física. Padrões alimentares semelhantes à dieta mediterrânea são apontados como opções favoráveis, inclusive pelos benefícios cardiovasculares.

Em adultos com sobrepeso ou obesidade, os autores descrevem metas de perda ponderal de pelo menos 5% para melhorar a esteatose e de aproximadamente 7% a 10% para favorecer a melhora da MASH e da fibrose. Essas metas devem ser individualizadas e não devem ser aplicadas automaticamente a todas as pacientes.

A recomendação geral discutida para atividade física é de pelo menos 150 minutos semanais de exercício moderado ou 75 minutos de atividade vigorosa, com adaptação à capacidade funcional e às condições clínicas.

Como avaliar o risco de fibrose hepática?

O acompanhamento não deve se limitar à identificação de gordura no fígado. É necessário avaliar o risco de doença avançada, especialmente em pacientes com diabetes tipo 2, obesidade, síndrome metabólica ou outros fatores relevantes.

A revisão destaca ferramentas não invasivas, como o escore FIB-4 e a elastografia hepática, para auxiliar a estratificação do risco de fibrose. A indicação e a interpretação desses exames devem considerar o contexto clínico e as recomendações aplicáveis. A biópsia hepática pode ser reservada para situações selecionadas em que a confirmação histológica seja necessária para esclarecer o diagnóstico ou orientar a conduta.

A avaliação deve contemplar também o risco cardiovascular e outras comorbidades associadas. Essa abordagem é particularmente importante porque os eventos cardiovasculares figuram entre as principais causas de morte em pessoas com MASLD.

Qual é o papel dos medicamentos?

A revisão menciona o resmetirom como uma opção farmacológica aprovada pela agência regulatória norte-americana para determinados adultos com MASH e fibrose significativa sem cirrose, conforme os critérios aplicáveis. A disponibilidade e as indicações regulatórias variam entre países e devem ser verificadas localmente.

Os autores também discutem estudos sobre agonistas do receptor de GLP-1, como liraglutida e semaglutida, que podem melhorar a esteatose em determinados contextos, especialmente quando promovem perda de peso. Entretanto, a indicação desses medicamentos deve considerar suas aprovações, diretrizes vigentes e objetivos terapêuticos específicos. O uso para tratar comorbidades metabólicas não deve ser confundido com uma indicação automática para tratar doença hepática.

Conclusão: por que integrar a saúde hepática à saúde da mulher?

A MASLD é uma condição metabólica com implicações que atravessam diferentes fases da vida feminina. A SOP, a gestação e a menopausa representam contextos nos quais o risco hepático merece atenção, inclusive em mulheres sem obesidade aparente.

Para o médico, o principal aprendizado é integrar a avaliação hepática ao cuidado cardiometabólico e reprodutivo, reconhecer fatores de risco, estratificar a fibrose quando indicado e priorizar intervenções individualizadas sobre alimentação, atividade física e comorbidades. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer as limitações das evidências, sobretudo em relação à terapia hormonal e a estratégias farmacológicas específicas para a doença hepática.

O avanço nessa área exige atualização científica contínua e capacidade de interpretar evidências à luz da realidade clínica. A educação continuada em Nutrologia contribui para uma abordagem mais integrada, criteriosa e individualizada das doenças metabólicas e de suas repercussões ao longo da vida da mulher.

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Referência científica

JANCOVA, Pavlina; ISMAIL, Khaled; VISTEJNOVA, Lucie. Relationship between MASLD and women’s health: a review. Women’s Health, v. 21, p. 1–13, 2025. DOI: https://doi.org/10.1177/17455057251376883.

Diretrizes europeias para MASLD: https://doi.org/10.1016/j.jhep.2024.04.031

Orientação clínica da AASLD: https://doi.org/10.1097/HEP.0000000000000323

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