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Como Melhorar a Adesão ao Tratamento da Obesidade?

A farmacoterapia da obesidade ocupa um espaço cada vez mais relevante no tratamento de uma doença crônica, complexa e associada a múltiplas comorbidades. Entretanto, prescrever um medicamento eficaz não garante, por si só, que o paciente irá utilizá-lo de forma adequada e por tempo suficiente para alcançar os benefícios esperados. A adesão ao tratamento da obesidade é parte essencial do resultado clínico.

Uma revisão narrativa publicada na Obesity Reviews analisou os principais determinantes da adesão aos medicamentos para obesidade e propôs uma abordagem que considera diferentes etapas do tratamento. Sharma et al, 2025 destacam que a adesão deve ser compreendida desde o início da terapia até sua manutenção ou interrupção, considerando também o momento clínico da obesidade, ganho de peso, perda de peso e estabilização ou recidiva.

Artigo Referência: Determinants of adherence to obesity medication: A narrative review – PubMed

SHARMA, Arya M. et al. Determinants of adherence to obesity medication: A narrative review. Obesity Reviews, v. 26, e13885, 2025. DOI: 10.1111/obr.13885.

O que significa adesão ao tratamento da obesidade?

Adesão medicamentosa não deve ser entendida simplesmente como “tomar o remédio corretamente”. O conceito envolve diferentes etapas.

A iniciação corresponde ao momento em que o paciente utiliza a primeira dose prescrita. A implementação representa o quanto o uso real corresponde ao regime prescrito entre a primeira e a última dose. Já a persistência corresponde ao período durante o qual o tratamento é mantido até sua interrupção.

Essa distinção é clinicamente importante. Um paciente pode aceitar a prescrição, mas nunca iniciar o medicamento. Outro pode iniciar o tratamento, porém utilizá-lo de maneira diferente da prescrita. Também existe aquele que responde inicialmente, mas interrompe o tratamento após algumas semanas ou meses.

Portanto, quando um paciente “não aderiu” ao tratamento, a pergunta médica deve ser mais específica: em qual etapa ocorreu a dificuldade?

Por que a adesão aos medicamentos para obesidade é um desafio?

A revisão mostra que os desafios relacionados à adesão parecem ser particularmente relevantes na obesidade. Dados de estudos observacionais apresentados pelos autores demonstram grande variação nas taxas de persistência entre diferentes medicamentos e populações.

Em um estudo de vida real com semaglutida para tratamento da obesidade, por exemplo, 5,7% dos pacientes interromperam o tratamento após a primeira dose e apenas 13% chegaram à dose máxima de 2,4 mg avaliada nos ensaios clínicos. Esses dados ilustram uma questão fundamental: a efetividade observada em ensaios clínicos depende, na prática, de o paciente conseguir iniciar, implementar e manter o tratamento.

Além disso, os números disponíveis devem ser interpretados com cautela. Os estudos utilizam definições e métodos diferentes para medir adesão, persistência e interrupção, dificultando comparações diretas entre medicamentos ou doenças. A própria revisão ressalta a escassez de dados consistentes sobre o uso dos medicamentos para obesidade em condições reais.

Adesão ao tratamento da obesidade durante acompanhamento médico e farmacoterapia
Adesão ao tratamento da obesidade é uma variável a ser avaliada durante acompanhamento médico

Quais são os principais fatores que influenciam a adesão?

A adesão é multifatorial. A revisão organiza seus determinantes em cinco dimensões propostas pela Organização Mundial da Saúde: paciente, profissional de saúde, fatores socioeconômicos, condição clínica e características da terapia. Na obesidade, alguns fatores são relevantes.

Percepção do paciente sobre a obesidade

A forma como o paciente compreende a própria doença pode influenciar sua relação com o tratamento. Alguns indivíduos ainda interpretam a obesidade predominantemente como consequência de escolhas individuais e podem considerar o uso de medicamentos uma espécie de “atalho” ou “trapaça”.

O estigma também pode dificultar a procura por tratamento. Segundo a revisão, medo de efeitos adversos, preocupação com polifarmácia, percepção de não merecer o medicamento e dificuldades de acesso podem interferir na iniciação terapêutica.

Para o médico, isso reforça a importância de explicar a obesidade como uma condição crônica e de estabelecer uma decisão terapêutica compartilhada.

Expectativas sobre perda de peso

Outro ponto relevante é a diferença entre aquilo que o paciente espera alcançar e os objetivos clínicos definidos pelo médico.

O paciente pode avaliar o sucesso principalmente pela quantidade de peso perdida, enquanto o médico também considera melhora metabólica, redução de risco e outros desfechos relacionados à saúde. Quando essas expectativas não são alinhadas, o paciente pode interpretar uma resposta considerada clinicamente adequada como fracasso terapêutico.

A própria variabilidade individual da resposta aos medicamentos pode contribuir para essa discrepância.

Por isso, definir expectativas antes e durante o tratamento é uma intervenção clínica, e não apenas uma etapa de comunicação.

Efeitos adversos e complexidade do tratamento

Eventos adversos, frequência de administração, via de administração, período de titulação e complexidade do regime também podem influenciar a implementação e a persistência.

Em alguns tratamentos, a necessidade de titulação gradual pode aumentar a distância entre o início da terapia e a dose de manutenção estudada nos ensaios clínicos. Além disso, fatores relacionados à rotina, alimentação, consumo de álcool e organização familiar podem interferir na utilização adequada do medicamento.

O médico deve, portanto, avaliar não apenas se o medicamento é indicado, mas também se o plano terapêutico é viável para aquele paciente.

Como melhorar a adesão aos medicamentos para obesidade?

Uma das principais mensagens da revisão é que a adesão não deve ser tratada apenas depois que ocorre uma interrupção, mas desde a primeira consulta.

1. Utilizar decisão compartilhada

O tratamento deve considerar objetivos, expectativas, benefícios, riscos e preferências do paciente. Uma abordagem colaborativa e não julgadora pode favorecer o engajamento e reduzir barreiras relacionadas ao estigma.

2. Explicar a natureza crônica da obesidade

A compreensão da fisiopatologia e da possibilidade de recidiva do peso pode ajudar o paciente a compreender por que a farmacoterapia pode precisar ser mantida em longo prazo. A revisão destaca que respostas biológicas adaptativas ao emagrecimento podem favorecer a recidiva ponderal e que a farmacoterapia pode atuar em conjunto com intervenções comportamentais.

3. Estabelecer expectativas realistas

O acompanhamento deve incluir uma conversa clara sobre o que se espera do tratamento, quais desfechos serão monitorados e como interpretar uma resposta parcial ou um período de estabilização.

4. Investigar barreiras em cada consulta

Perguntar simplesmente “você está tomando o medicamento?” pode ser insuficiente.

É mais útil investigar efeitos adversos, dificuldades financeiras ou de acesso, esquecimentos, rotina, receios, compreensão da prescrição e satisfação com os resultados.

5. Transformar o medicamento em parte da rotina

A revisão cita estratégias como incorporar a medicação à rotina, utilizar acompanhamento estruturado, fortalecer a educação do paciente e, quando apropriado, utilizar ferramentas digitais e telemedicina.

O papel do médico na persistência do tratamento

A experiência do profissional de saúde também pode influenciar a adesão. Dados apresentados na revisão sugerem que pacientes tratados por endocrinologistas ou especialistas em obesidade apresentaram maior probabilidade de completar 12 semanas de tratamento com agonistas do receptor de GLP-1 do que aqueles que receberam a prescrição na atenção primária.

Isso não significa que a especialidade do prescritor seja, isoladamente, determinante da adesão. O achado reforça a importância da experiência clínica, educação terapêutica, acompanhamento e capacidade de reconhecer barreiras específicas da obesidade.

Nesse contexto, a consulta de acompanhamento deixa de ser apenas uma oportunidade para avaliar peso e efeitos adversos. Ela também é um momento para revisar expectativas, reforçar objetivos, identificar obstáculos e adaptar o tratamento.

Adesão não é sinônimo de responsabilidade individual

Um dos pontos mais importantes para a prática médica é evitar interpretar a não adesão como simples falta de motivação.

O artigo enfatiza que problemas de adesão são comuns nas doenças crônicas e que a comunicação entre médico e paciente pode contribuir para identificar e superar barreiras. Linguagem não julgadora, diálogo aberto e participação ativa do paciente no processo decisório são estratégias destacadas pelos autores.

Essa perspectiva é particularmente relevante na obesidade, uma condição frequentemente marcada por estigma. A abordagem clínica deve buscar compreender por que o tratamento não está sendo seguido antes de concluir que o paciente simplesmente “não aderiu”.

Conclusão: adesão ao tratamento da obesidade

A adesão aos medicamentos para obesidade é um componente fundamental da efetividade terapêutica. Mais do que verificar se o paciente está utilizando o medicamento, o médico precisa compreender três etapas distintas: iniciação, implementação e persistência.

Os determinantes são múltiplos e incluem expectativas, efeitos adversos, custo, acesso, complexidade do tratamento, percepção da doença, comunicação profissional-paciente e compreensão da necessidade de tratamento prolongado.

Para a prática clínica, a principal mensagem é objetiva: melhorar a adesão começa antes da primeira dose e continua durante todo o acompanhamento. Educação, decisão compartilhada, expectativas realistas e identificação sistemática das barreiras podem transformar a relação do paciente com o tratamento.

À medida que a farmacoterapia da obesidade se torna cada vez mais presente na prática médica, a atualização profissional em Nutrologia torna-se essencial para que a prescrição seja acompanhada de estratégias adequadas de acompanhamento, individualização e educação terapêutica.

Referência científica principal:
SHARMA, Arya M. et al. Determinants of adherence to obesity medication: A narrative review. Obesity Reviews, v. 26, e13885, 2025. DOI: 10.1111/obr.13885.

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